(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Alberto, 67 anos, acordou às 5h33 sem o despertador. Há 43 anos o relógio gritava às 5h30 em ponto. Hoje o corpo despertou sozinho, por hábito, três minutos atrasado para uma fábrica que não existe mais. Pelo menos para ele. Alberto ficou deitado olhando o teto. Pela primeira vez em quatro décadas não tinha para onde ir. Aposentado. A palavra pesava na boca. Quis tanto! Contou os dias. “Quando me aposentar vou pescar, vou ler, aproveitar a vida”. Só que não fazer nada, descobriu Alberto naquele início de manhã, é um trabalho em tempo integral. Levantou. Fez café. O silêncio da casa às 6h15 é diferente do silêncio das 22h. De noite, o silêncio é descanso. De manhã, tem gosto de cobrança. Às 7 horas Alberto já tinha lavado a louça que ele mesmo sujou. Às 7h12, varreu a calçada. Às 7h30, sentou no sofá. A mulher, Dalva, saiu para a hidroginástica. “Não me espera pra almoçar, Beto. Hoje tem bingo beneficente”. Dalva tinha 63 anos e uma agenda que faria qualquer executivo corar. Alberto tinha 67 e um deserto de horas pela frente. Ligou a TV. Jornal da manhã. Acidente na estrada, dólar subiu, time perdeu. Tudo acontecendo e ele ali, espectador da vida dos outros. Pegou o controle. Desligou. O tique-taque do relógio da sala, que nunca tinha notado, agora parecia martelada. Às 9 horas vestiu a camisa. Foi até a padaria. “Seu Alberto! Sumido. Está de férias?” “Aposentei”, ele disse, esperando confete. “Ah. Parabéns”, respondeu a moça do caixa, já passando o próximo pão. Voltou para casa com o pão quente e uma sensação de frio na alma. Almoçou sozinho às 11h47 porque não aguentou esperar. O arroz requentado tem gosto de terça-feira sem sentido. Depois do almoço pegou o carro e foi até a frente da fábrica. Ficou espiando e pensando. “Quantas vezes, lá dentro, eu desejei estar aqui fora. Agora estou aqui, com o tempo livre, querendo estar lá dentro”. Voltou mais uma vez para casa. À tarde, Alberto tentou cochilar. Não veio o sono. Só chegou a lembrança do crachá 00388. O número que foi dele durante 43 anos. Agora era só Alberto, aposentado, cumpridor das obrigações, legítimo merecedor daquele descanso. Mas ser só o Alberto parecia ser muito pouco para preencher um dia. Às 16h abriu a caixa de ferramentas. Não tinha nada quebrado. Fechou. Às 16h40 Dalva voltou bronzeada e rindo. “Ganhei o bingo, Beto! Um jogo de toalha”. Mostrou, feliz. Ele sorriu. Um sorriso aposentado. De noite, na cama, Dalva dormiu em três minutos. Alberto ficou acordado. Entendeu, às 23h29, que passou a vida inteira correndo para a linha de chegada. Quando cruzou, descobriu que do outro lado não tinha pódio ou medalha. Sobrava só o resto da pista. E ele, descalço, não sabia mais para onde correr. Ninguém avisou Alberto que aposentar do trabalho seria fácil. Difícil é se aposentar do homem que ele foi a vida inteira.