(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Seu Elias descobriu que o tempo dele tinha prazo de validade. O médico falou um nome difícil e depois outro mais difícil ainda. Seu Elias assentiu com a cabeça, guardou o papel no bolso e voltou para casa. No dia seguinte não foi trabalhar. Caminhou até a praça e sentou no banco de concreto. Durante alguns minutos, ficou com olhos fixos na letra M que as linhas escreveram na palma de sua mão. Virou o rosto e viu que não estava mais sozinho. Na quina do banco, uma pequena borboleta amarela parecia tentar chamar a sua atenção, abrindo e fechando as asas. Seu Elias deu um leve sorriso. — O que você quer, menina? Não tenho flor para te dar, não. A borboleta não respondeu. Só continuou abrindo e fechando as asas, fazendo companhia naquela solitária manhã. No outro dia, Seu Elias voltou para a praça. Sentou no mesmo banco para esperar a borboleta. Mas ela não veio. Em seu lugar apareceu um cachorro magro que sentou no chão, a dois metros do velho banco de concreto. Seu Elias olhou para ele com um certo ar de desconfiança, pegou o pão que havia levado, partiu no meio e ofereceu ao cachorro. O cão abanou o rabo, comeu e deitou. — Vida dura a sua, hein? O cachorro só piscou. Seu Elias e o bicho ficaram ali por algumas horas, cada um cuidando do silêncio do outro. Na manhã seguinte, Seu Elias esperava reencontrar o cachorro magrinho. Até levou um saco de pão. Mas quem apareceu foi um gato gordo, aparentemente bem-cuidado, que pulou sobre o banco do outro lado do jardim. Com cara de poucos amigos, se esticou, bocejou e dormiu. Seu Elias riu baixinho. — Chegou atrasado e já quer a melhor parte. O gato abriu um olho só, como quem diz “problema seu”. Enquanto o gato dormia, Seu Elias ficou ali, pensativo. Três visitas, três bichos que não pediam nada. A borboleta não cobrava resultado. O cachorro não exigia pedigree. O gato não esperava explicação. E Seu Elias, que a vida inteira havia corrido atrás de meta, contas e boletos, começou a entender uma coisa. Passou 40 anos carregando folhas para o formigueiro, guardando, planejando o inverno, e esqueceu de sentar no banco. Esqueceu de ver a borboleta, de dividir o pão, de aguentar o gato folgado. No outro dia retornou à praça. A borboleta, enfim, apareceu. O cachorro voltou. O gato também. Seu Elias, então, não lembrou da doença. Não pensou no futuro. Apenas viveu. “Se amanhã o banco ficar vazio, pelo menos hoje ele esteve cheio”. E pela primeira vez sentiu vontade de cantar baixinho. Não era música que tocava em rádio, era só um som mesmo, saindo do peito.