O fim da tarde banha com luz dourada o concreto dos prédios. O sol, que já se prepara para ir embora, aquece sem exagero as ruas vazias de um domingo no centro da cidade. Enquanto dirijo meu carro, uma estranha nostalgia toma conta do peito. Por um instante, tento entender por que sempre achei tristes os momentos que antecedem o anoitecer. Tento descobrir de onde vem uma espécie de saudade dormente e misteriosa que abraça a alma sem pedir licença e sem dar explicações. É como se o sol, ao se deitar na linha do horizonte, assumisse o papel principal do nostálgico teatro da vida. Logo à minha frente, o semáforo fecha. Observo um senhor com seus 60 e poucos anos sentado no banco de uma praça. Vestido com roupas pretas, ele calça sandálias de couro. Está sozinho e olha fixamente para o chão enquanto suspende e balança as pernas vagarosamente. A cena me chama a atenção. Observo mais. Porém, não sei dizer se o semblante daquele homem que está a alguns metros de distância transmite paz ou tristeza, solidão ou serenidade. Não consigo dizer se ele traz no coração a vontade de segurar a mão de alguém que está ausente ou se apenas aprecia o belo fim de tarde na paz silenciosa de um domingo. Continuo olhando. Ainda assim, não sou capaz de dizer se aquele senhor, cabisbaixo e quieto, tem a consciência tranquila ou se carrega o fardo de algum arrependimento. Não sei dizer se espera por alguém, se comeu macarronada no almoço, se está aborrecido com a derrota do seu time ou se pretende ir à missa das seis horas. Eu tento, tento outra vez, mas, de verdade, não sou capaz de dizer. Não consigo dizer por que escolheu aquele banco, por que preferiu a sombra daquela árvore ou por que mira o chão acinzentado enquanto no céu o azul brinca com o laranja. Não sei dizer o que ele pensa, o que esconde e o que mostra. O que fala e o que ouve eu confesso que também não sei dizer. A luz verde do sinal de trânsito interrompe minhas divagações. Acelero e deixo tudo para trás. Levo comigo só o silêncio e a certeza de que alguns crepúsculos não se explicam, apenas se mostram. No banco daquela praça, cabia toda tarde de domingo que já vivi, toda saudade que ainda não tem nome. Acelero mais. O mistério me acompanha no retrovisor — quieto e de roupa preta, balançando as pernas. *Jornalista marcelo.luis@grupo-tribuna.com