(Adobe stock) Não sabemos quantas gotas tem um oceano. Nem quantos grãos de areia tem a praia. Não sabemos o que o outro pensa quando fica quieto. Se o silêncio é paz, cansaço ou um jeito educado de ir embora. Não sabemos onde vai parar a meia que some na máquina. Nem por que o pão insiste em cair com a manteiga para baixo. Não sabemos quando a infância acabou. Foi em que dia, em que hora, que a gente parou de correr para abraçar alguém? Não sabemos se o “tudo bem” era tudo bem mesmo. Nem quantas vezes alguém pensou em voltar e não voltou. Não sabemos o que o cachorro sonha quando late dormindo. Se sonha com a gente, com o quintal ou com o biscoito. Não sabemos o que o vizinho de cima arrasta às 23h51. Nem por que a fila do mercado anda mais rápido quando a gente sai dela. Não sabemos como o sabiá percebe que está chegando a primavera. Nem por que lembramos a letra inteira de uma música de 1984 e esquecemos o que almoçamos ontem. Não sabemos de onde vêm os discos voadores. Nem por que algumas pessoas têm olhos de coruja. Não sabemos o que as formigas cochicham. Nem quem chorou por nós. Não sabemos por que amamos. Nem por que o sorvete fica mais gostoso no inverno. Não sabemos quantas histórias as esquinas já ouviram e não contaram. Nem para onde vai o cheiro do pastel depois da feira. Não sabemos quantas vezes fomos perdoados sem pedir desculpas. Nem por que o domingo à tarde dói diferente. Não sabemos quantas vidas cabem dentro da vida da gente. Nem o que o espelho não mostra. Não sabemos quanto tempo ainda temos. Nem o que fica da gente na memória dos outros — se é a risada, a bronca ou o jeito de fazer café. Não sabemos o que dizer em velório. O que falar em um reencontro. O que explicar quando o amor pede mais uma chance. Não sabemos quase nada. E talvez seja por isso que as pessoas continuam. Não saber é o que deixa a vida em aberto. Mas isso, também, nós não sabemos.