(Adobe Stock) Celino tem uma estranha mania. Fica inquieto se não avistar uma borboleta pelo menos uma vez por semana. É assim desde criança. Para ele, encontrar uma borboleta é como receber uma mensagem divina. Um sinal de proteção que vem lá do alto. Enquanto voa entre folhas e flores, suas asas escrevem no ar com letras invisíveis: “nada de ruim vai acontecer com você”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não se sabe como esta obsessão começou. Talvez tenha surgido de algum delírio infantil que se perpetuou, provavelmente quando passava horas brincando na casa da avó. Era um chalé pintado de verde musgo, construído no final da década de 1930. No quintal, como era costume, havia muitas plantas e flores. Passarinhos apareciam por lá antes mesmo de o sol nascer e quebravam a melancolia dos finais de tarde com uma verdadeira festa nas goiabeiras e mangueiras que apontavam para o infinito. Mas Celino gostava mesmo das borboletas. Azuis, amarelas, laranjas, brancas, multicoloridas. Penso que em algum dia esquecido de sua infância o garoto viu uma borboleta. Depois aconteceu alguma coisa boa. Ganhou um doce. Marcou um gol. Foi elogiado na escola. Ganhou um sorriso da menina mais especial. Pronto. A partir daquele momento, e para sempre, borboleta seria sinônimo de sorte, proteção e conquista. O tempo foi passando e muitas borboletas apareceram em seu caminho. Celino já está com 42 anos e costuma optar por caminhos que ficam perto de praças e jardins. Agindo assim, aumenta a chance de encontrar suas mensageiras da sorte e atingir a sua meta semanal de avistamento de borboletas. Não preciso nem dizer que o rapaz leva isto muito a sério. Em um sábado de folga, após cinco dias sem conseguir ver uma borboleta, a ansiedade de Celino já estava no auge. Chegou ao cúmulo de renunciar ao sono, sair de casa bem cedinho e dar plantão no maior jardim público de sua cidade. Só saiu de lá quando viu uma bonita borboleta amarela. O esforço valeu a pena. Sentiu-se mais leve. Abençoado. Nada de ruim lhe aconteceria. Mas nem sempre foi assim. Certa vez, precisou ser internado por causa de uma pneumonia. Adivinha? Nos dias que antecederam a febre, a tosse e o diagnóstico, Celino não viu borboleta. Coincidência? Não sei. No quarto do hospital, ficava inquieto e aflito. Não tinha jardim, não tinha praça, muito menos o quintal da casa da avó. Foram muitos momentos de angústia, até que em uma tarde surgiu o sinal divino. O rapaz que dividia o quarto hospitalar recebeu a visita de sua irmã. Ela vestia uma blusa com pequenas borboletas estampadas. Os olhos de Celino se encheram de lágrimas, afinal, no manual criado pela sua mente, ninguém disse que nos casos de internação hospitalar a borboleta precisava ser de verdade. “É uma resposta. Um sinal de Deus!”, festejou. Espantada, a mulher não entendeu nada. E Celino segue a sua vida com esta obsessão incomum. Continua por aí, sentando em bancos de praças e passeando por jardins. Deve ser feliz a seu modo. E assim será, até que um dia seus olhos descansem, talvez, perdidos no gracioso bater de asas de uma borboleta.