Brasilino nasceu na tarde de 21 de junho de 1970, exatos dez minutos após o apito final. Enquanto o Brasil festejava o tri na Copa do México, o pai dizia todo orgulhoso: “Esse menino já chegou com faixa de campeão”. Um ano depois, a primeira palavra que Brasilino falou não foi “mamãe”. Foi “Pelé”. A mãe chorou e culpou o marido. “Vai ser mais um fanático por futebol!”. Depois do título de 1970, Brasilino viu inocentemente as Copas de 1974 e 1978, e ainda não compreendia direito a dor de uma eliminação. Para valer, mesmo, foi em 1982. Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Júnior, Serginho Chulapa... Brasilino comprava chiclete Ping Pong compulsivamente só para completar o álbum de figurinhas. Conseguiu. E ainda ganhou algumas cáries. No dia da derrota para a Itália, Brasilino enterrou a camisa amarela no quintal de casa e chorou por três dias seguidos. Em 1986, ele desenterrou a camisa, mas a França estragou a festa. Com 19 anos, Brasilino já trabalhava. Era a Copa de 1990. O patrão não quis dar folga justamente no dia da partida decisiva contra a Argentina. Brasilino deu o cano. Apareceu no dia seguinte com os olhos vermelhos. - O que você tem? - Febre amarela. Foi despedido. Em 1994, finalmente veio o tetra. Em um momento de delírio, Brasilino escreveu uma carta ao Vaticano para pedir a canonização do goleiro Taffarel. Não chegou resposta. E quando o Brasil perdeu para a França na final da Copa de 1998, encarou aquele fatídico dia como um sinal divino. “Só pode ter sido castigo de Deus”. Brasilino já era um homem casado na conquista do penta. Sem contar para a mulher, foi ao barbeiro do bairro e pediu um corte de cabelo igual ao do Ronaldo Fenômeno. Quase deu divórcio. Uma curiosidade: filho de Brasilino só tem nome de jogador. O mais velho é Sócrates, o do meio Romário e o caçula, Rivaldo. O cachorro atende por Fuleco. O gato, Naranjito. Aliás, a casa de Brasilino é um museu que não cobra ingresso. Tem a bandeira usada em 1994, a réplica da taça de 2002, recortes de jornal e camisas de todas as outras copas. O item mais valioso é o ingresso do jogo entre Brasil e Croácia, que abriu a Copa de 2014 em nosso país. Foi a primeira vez que Brasilino conseguiu ir a um estádio assistir a um jogo de Mundial. No terceiro gol da seleção, Brasilino apareceu enlouquecido no telão, no meio da torcida, distribuindo beijinhos com a vuvuzela na mão. Pena que aquela alegria tinha prazo de validade. Depois do 7 x 1, Brasilino ficou em estado de choque. Foi socorrido pelo Samu e decretou “luto oficial” por quatro anos. Semana passada, Brasilino mandou fazer uma tabela gigante com os jogos da Copa de 2026. Pregou na parede do quarto, bem no meio de dois vasos com espada de São Jorge. Está confiante de que o jejum de 24 anos vai acabar. Outro dia, perguntaram para ele o que fará se o Brasil for hexa. Brasilino coçou a barba pintada de verde e amarelo e respondeu: “Ué, começo a contar os anos para o hepta!” . Para Brasilino, a vida não é só sobre perder ou ganhar. É sobre esperar a próxima Copa. O resto? Ah, o resto é só acréscimo.