Araújo Filho foi a voz das seis da manhã por 23 anos. “Alô, alô, bom dia cidade”. Mas aposentou quando o FM substituiu o AM e o patrão trocou o estúdio por um podcast de horóscopo. Só esqueceram de avisar que ele tinha saído do ar. Hoje, aos 78, compra pão como se fosse boletim ao vivo. Entra na padaria, imposta a voz, e a mão esquerda vira concha no ouvido: - Boooom dia, Dona Sônia! Aqui quem fala é Araújo Filho, direto da Padaria Estrela, a que tem o melhor pãozinho da região central! - E hoje o tempo... Ele pausa e olha para o teto, como se esperasse a vinheta do boletim meteorológico. Dona Sônia já não espera. Entrega dois pães e cobra. - Tempo firme, com possibilidade de sonhos à tarde! Voltamos já com mais informações, depois do nosso intervalo. O reclame é ele mesmo: - E você aí de casa, já experimentou o sonho recheado da Dona Sônia? É de comer rezando. A filha, Marlene, tentou corrigir. - Pai, não precisa falar assim. Já acabou. Ele olhou para ela, baixou um milímetro a mão da orelha e respondeu no mesmo tom de encerramento: - E com essa mensagem de uma ouvinte especial a gente vai ficando por aqui. Eu sou Araújo Filho e essa foi mais uma edição do Bom Dia Cidade. Fiquem com Deus... e com a Marlene, que é brava, mas é gente boa! Marlene desistiu de corrigir. Passou a ligar o rádio antigo, sem sintonia, só por causa do chiado. Descobriu que o pai fala mais baixo com o ruído ao fundo. Fica quase normal. Teve um dia que a ambulância veio buscar o Seu Evaristo, morador do 42. A sirene cortou a rua. Araújo parou na calçada, mão em concha, e entrou no ar antes de qualquer vizinho: - Atenção, senhores ouvintes, plantão de última hora: nosso amigo Evaristo acaba de seguir viagem. Pedimos uma corrente de oração e um minuto de silêncio no dial do coração. E fez silêncio. A rua inteira, sem combinar, calou junto. Até a sirene pareceu baixar o volume. Quando voltou a falar, adotou um tom solene: - Ele gostava de Roberto Carlos. Põe aí na sequência, operador. Não tinha técnico de áudio. Mas Dona Sônia, da padaria, abriu a janela e botou para tocar “Detalhes” na sua caixinha de som. Araújo Filho não é louco. É viúvo de microfone. Fala com a mão no ouvido porque esse foi o único jeito que encontrou de ouvir o mundo de volta. A cidade inteira virou estúdio. Ontem, por exemplo, presenciei uma cena curiosa. Um menino de aproximadamente cinco anos travou na cadeira do barbeiro. Não queria cortar o cabelo. Araújo passou na porta, viu tudo e entrou ao vivo: - Aqui quem fala é o Tio Araújo, direto do Salão do Carlinhos! Temos um ouvinte de primeira viagem enfrentando a tesoura valente! Uma salva de palmas para esse guerreiro! O barbeiro, o pai, eu, todo mundo bateu palma. O menino riu e deixou cortar. Na saída, perguntei: - O senhor não cansa, não? Ele tirou a mão da orelha pela primeira vez e coçou o ouvido de verdade, como quem tira o fone depois de quatro horas no ar. - Cansar, eu canso. Mas o silêncio aqui dentro do peito é que não pode. Silêncio demais é rádio fora do ar”. Depois deu um sorriso, colocou novamente a mão no ouvido e caminhou, anunciando para todo mundo: - Voltamos amanhã pontualmente às 6h da manhã. Bom dia, cidade!