(Gerado por IA) São Paulo, 1956. As grandes estruturas de concreto que pareciam transformar em miniaturas pessoas e automóveis em constante movimento contrastavam com alguns jardins e áreas verdes. Os dias daquela primavera eram quentes. Nas ruas, os passos apressados, o ronco dos motores e os paredões dos arranha-céus espalhavam uma estranha sensação de solidão. Por mais que houvesse gente indo e vindo, cada um estava preso em seu próprio mundo de preocupações. Mundos de ilusões e de obrigações. Arlindo era apenas mais um sobrevivente na pauliceia. Funcionário de um escritório de seguros, todos os dias, na hora do almoço, saía apressadamente do prédio localizado na Líbero Badaró e alcançava o Viaduto do Chá, onde sentia o coração bater descompassado. O motivo de tamanha ansiedade era uma bela vendedora de flores que ocupava um pequeno espaço na calçada. Aquela jovem, que parecia ter pouco mais de 20 anos, trazia um estranho semblante de melancolia em seus olhos esverdeados. Os cabelos escuros ganhavam um brilho ainda mais intenso sob a luz do sol. Por vezes, usava um lenço branco na cabeça que dava ao seu rosto um aspecto ainda mais angelical. Desde que a viu pela primeira vez, Arlindo perdeu a paz de rapaz solteiro. No começo, passava uma ou duas vezes perto da vendedora de flores apenas na esperança de que seus olhares pudessem se encontrar, mas passou completamente despercebido. Alguns dias depois, criou coragem e fingiu interesse nas flores. Mal sabia distinguir uma rosa de um lírio. Apontou para qualquer uma das flores e perguntou o preço. Queria ouvir a voz de sua querida desconhecida. Que voz doce! Voltou para o escritório com uma dúzia de rosas e cara de bobo. Disse aos colegas que queria enfeitar a sua mesa de trabalho. Arlindo estava apaixonado. Nesses assuntos do coração, a razão quase sempre passa bem longe. Mal sabia quem era a jovem, mas só pensava nela. E se já tivesse um compromisso? Poderia ser noiva ou casada. Voltou no dia seguinte e observou se usava aliança. Bom sinal. Nada havia em seus dedos. Com a desculpa de que levaria algumas flores para sua mãe, iniciou um diálogo com a florista. Perguntou seu nome. Tímida, ela respondeu: Clarice. Arlindo quis saber mais. Onde morava? Há quanto tempo estava ali? Clarice disse morar no Brás. E que vendia flores para ajudar nas despesas de casa desde que seu pai falecera. Sua mãe era doente, mas trabalhava como costureira. Tinha dois irmãos menores e era preciso levar algum dinheiro para casa. O rapaz quis perguntar se era solteira, mas não teve coragem. Muitas perguntas em apenas um dia poderiam assustar a doce Clarice. Faria isso em outra hora. No dia seguinte, na hora do almoço, para seu desencanto, não viu a florista. E assim foi nos outros dias. No espaço em que ela costumava ficar, apenas um pedaço vazio de calçada. Arlindo sentiu o gosto amargo da desilusão. Por muitas e muitas vezes caminhou por todo o Viaduto do Chá na esperança de encontrar Clarice, mas foi em vão. Anos depois, noivou e casou-se com outra moça, com a qual construiu uma linda família. Muitas vezes, porém, no silêncio da madrugada, lembrou-se de Clarice. Naquelas horas, podia sentir o perfume refrescante das flores, o verde profundo de um olhar inesquecível e a saudade de um amor que, inexplicavelmente, o tempo não apagou.