(AdobeStock) O Cine Palácio fechou em 1997. A prefeitura pregou tábua na porta e o letreiro perdeu o P, o A e o O. Virou Cine Láci. Só não avisaram Manoel. Ele tinha a chave e a teimosia de quem não aceitava o apagar das luzes. Toda noite, às 19 horas, destrancava o cadeado, espantava três gatos e um morcego e ligava o disjuntor. A energia cortada há décadas não impedia. Manoel dizia que cinema não funciona com fio. Funciona com fé. Sentava na poltrona 7 da fileira M, a do meio, a melhor para namorar se ainda tivesse namoro. Tirava o boné, alisava os quatro fios de cabelo e sussurrava. — Luz, câmera, ação... Como mágica, a tela rasgada acendia só para ele. Segunda-feira era faroeste. Manoel projetava com a memória. O mocinho era ele, 25 anos, sem barriga. A donzela tinha o rosto da Julieta, que vendeu ingresso de 1962 a 1971 e preferiu se casar com o dentista. No filme do Manoel, Julieta largava o dentista e fugia com ele no cavalo. Terça era dia de drama nacional. Manoel passava o rolo do dia em que o pai foi embora. Só que, na tela, o velho voltava. Descia do ônibus com a mala na mão. — Meu filho, desculpa a demora. Manoel pausava nessa parte. Chorava baixinho. Quarta-feira não tinha sessão. Era dia de limpar o projetor que não existia mais. Passava flanela na lente imaginária e conversava com ela. — Aguenta mais uma semana, companheira. A gente ainda vai estrear em Cannes. Quinta era comédia. Manoel botava para rodar todas as gafes da cidade. O prefeito tropeçando no palanque, o cachorro invadindo a missa, ele mesmo escorregando na casca de banana. Ria sozinho, uma gargalhada sincera, quase infantil. Os gatos na plateia miavam junto. Sexta tinha romance no Cine Láci. Sempre o mesmo filme: ele e Julieta depois da sessão das 8. Manoel segurando a mão dela no escuro, os dois errando a boca no beijo, porque beijo de verdade é torto mesmo. Durava 1 minuto e 42 segundos. Sons de violinos saíam do peito de Manoel e espalhavam no velho cinema uma trilha sonora de amor. Sábado era suspense. O filme de que ele mais gostava de passar era O Dia em que o Cine Palácio Reabriu. Lotação esgotada, fila na rua, pipoqueiro suando, criança chorando para entrar. O bilheteiro rasgando ingresso, falando ‘bom filme’ para todo mundo. O suspense era: será que hoje vai? Nunca ia. Mas o frio na barriga vinha igual. Domingo era documentário. Passava a vida de Manoel. Preto e branco, narrado por ele mesmo, imitando a voz do locutor da rádio da cidade. — E aqui vemos Manoel, jovem lanterninha, ensinando a cidade a sonhar no escuro. Manoel morreu em uma terça-feira, passando o drama. Sorriu no final. Foi encontrado na poltrona 7, boné no peito, igual a quem dorme depois do ‘The End’. A cidade inteira se comoveu. Teve campanha e a história passou até na televisão. Reformaram e reabriram o Cine Láci. Agora é Cine Manoel. Na primeira sessão, ninguém sentou na poltrona 7 da fileira M. Na 8 também não. E há quem jure, até hoje, que naqueles dois lugares vazios Manoel e Julieta foram vistos. Abraçados, dividindo um saquinho de pipoca, enquanto na tela o par romântico do filme fugia a cavalo para uma terra desconhecida.