(Canva IA) Pense em uma pessoa que odeia guarda-chuva. É o Gumercindo. Marceneiro dos bons. Vai a pé para o trabalho. E gosta de andar com as mãos livres. Mas naquela manhã de agosto o céu desabou. Chuva que molhava até a alma. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Ritinha, vou pegar emprestado aquele seu guarda-chuva azul”, disse para a esposa, contrariado. “Já falei para você comprar um só para você! Essa sombrinha era da minha avó Tereza! É lembrança de família. Uma relíquia”. O homem virou as costas, foi até o armário da lavanderia e pegou a sombrinha azul com flores amarelas. “Onde já se viu? Ter ciúmes de um guarda-chuva velho”. Na marcenaria, Gumercindo deixou a sombrinha encostada em um canto da parede. Algum tempo depois, saiu com o ajudante Manolo para fazer um serviço na casa de um cliente. Só voltou perto da hora do almoço. E foi ali que começou o seu drama. “Onde está o guarda-chuva que deixei aqui?”, perguntou para Antonio, o colega que havia ficado na marcenaria. “Rapaz, estava jogado no meio da serragem e emprestei para aquela senhora, a Dona Idalina, que veio pegar a porta do armário. Coitada, estava com a roupa toda molhada”. Gumercindo percebeu o tamanho do problema. Se voltasse para a casa sem a sombrinha, estaria frito. Em vez de sair para almoçar, pegou no recibo o endereço da mulher e foi até lá. Casa simples, amplo quintal na frente. Bateu palmas. Chamou. Ninguém deu sinal de vida. Gumercindo estava ficando nervoso. Pelo menos, de longe, viu o guarda-chuva de família embaixo do telheiro. Mas ninguém atendia. O nervosismo só não foi maior que o susto quando apareceu no quintal uma ave enorme e barulhenta em posição de ataque. Um ganso bem gordo, com seu grasnar histérico e rouco. Na casa ao lado, o rosto de uma senhorinha de idade avançada apareceu na janela. “Cuidado, rapaz! É o ganso Bebezão. É bravo! Pior que cachorro!” Gumercindo não acreditou no que estava acontecendo. Sentou-se no meio-fio. Em algum momento Dona Idalina teria que voltar. A esta altura, Bebezão, tal qual sentinela, mantinha-se atento perto do portão. O tempo corria e nada. Ninguém aparecia. Invasão de domicílio seria a única solução? “Vou pular o muro e pegar o guarda-chuva. Será que esse ganso me ataca mesmo? E se alguém me denunciar? Vão pensar que é ladrão”. Pensou: melhor ser preso do que perder o casamento. Na delegacia teria a chance de explicar a confusão. Em casa, a história seria muito pior. Gumercindo pulou o muro e correu até onde estava a sombrinha florida da vovó Tereza. De asas abertas, Bebezão o perseguia. Bicadas nas pernas e nas costas. Como se estivesse agarrado a um troféu valioso, o marceneiro aguentou firme. Saltou de volta para a calçada e se afastou. Da esquina ainda dava para ouvir o escândalo do ganso. Antes de voltar para casa, Gumercindo achou melhor comprar um guarda-chuva só pra ele. A previsão do tempo indicava que o tempo continuaria instável no dia seguinte. Melhor não arriscar. Chegou em casa sorridente. Cansado e dolorido, mas vitorioso. “Ritinha, aqui está a sombrinha da sua avó. Sabe, você tem razão. É uma obra de arte. Não é para usar em qualquer chuva, não. Guarde com carinho”. Beijou a mulher e foi tomar um banho quente.