Perto de um pote de vidro com açúcar, esquecido no fundo do armário da cozinha, vivia uma colônia de formigas. No início, era só sobrevivência. Entravam no pote por um pequeno vão deixado na tampa. Pegavam algumas migalhas e retornavam rapidamente para dividir o alimento com as outras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Até que um dia uma formiga confrontou as colegas. - E se a gente morar dentro do pote? Uma breve discussão e assim foi feito. O pote com açúcar virou casa, cidade e país. Paredes de vidro e chão branco, infinito. As formigas nunca mais precisaram enfrentar chuva, frio e formigueiro inimigo para conseguir comida. Era só acordar, esticar a antena e devorar o açúcar. No primeiro mês foi festa. Todo mundo agradecia. “Que sorte a nossa”, diziam. No segundo mês já não agradeciam tanto. Para quê? O açúcar estava ali mesmo. No terceiro mês começaram os problemas. As formigas mais velhas falavam que as novas comiam demais. As formigas jovens diziam que as mais velhas só sabiam reclamar. Ninguém carregava mais nada para o outro. Tinha açúcar de sobra, todo o tempo. Dentro do pote era cada um por si. As brigas aconteciam pelos motivos mais bobos. “Você pisou no meu grão”. “Você respirou perto do meu canto”. O pote, que antes era um paraíso para aquela colônia de formigas, de repente virou uma terra cheia de discórdia. O doce tinha ficado amargo. Uma formiga mais nova, que ainda não tinha se acostumado com a moleza e estava bastante incomodada com aquela situação, perguntou para a mais velha: - Vovó, a senhora lembra como era a vida lá fora? A formiga idosa suspirou, lambuzada de doce, e respondeu com uma voz carregada de melancolia. - Lembro bem! Era difícil. A gente suava, mas todo mundo era feliz enquanto carregava e dividia a comida. A formiga nova olhou em sua volta. Só viu semblantes carregados e carantonhas. Ninguém sorria mais. Só mastigava. De repente, um barulho. E uma mão apressada derrubou o pote. Era dia de faxina. Um descuido. O vidro quebrou e o açúcar se espalhou pelo chão da cozinha. As formigas saíram correndo, desesperadas. Sem estoque, sem nada. Fora do pote, o mundo era duro novamente. Tinha que trabalhar. Dividir. Caminhar. Na segunda noite daquela nova realidade, enquanto se preparava para dormir debaixo de uma folha, uma das formigas achou um pequeno grão de açúcar. Pequeno, sujo. Seus olhos brilharam. Pegou o minúsculo fragmento de açúcar, chamou as outras formigas da colônia e dividiu em partes iguais. Naquela noite brincaram como antigamente. E cada formiga comeu o seu pedacinho de açúcar.