(FreePik) O Carnaval passa. A rotina volta. E junto com ela, aparece um sentimento conhecido: a culpa. Foram alguns dias dormindo menos, comendo fora do horário, bebendo mais do que o habitual e treinando pouco ou nada. Na volta, a decisão parece óbvia: compensar. Mas é justamente aí que mora o erro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Alguns dias fora da rotina não destroem sua evolução. O que compromete o progresso é tentar pagar essa conta em uma semana. O corpo não funciona na lógica do castigo. Ele responde a estímulos organizados. Durante períodos como o Carnaval, especialmente na Baixada Santista, o organismo sofre um estresse diferente: calor, desidratação, exposição prolongada ao sol, alteração do sono e da alimentação. Mesmo sem treino intenso, há desgaste fisiológico. O sistema nervoso fica mais exigido, a recuperação muscular é prejudicada e o padrão hormonal se desorganiza temporariamente. Isso não significa perda real de condicionamento. Significa apenas que o corpo precisa de reorganização. O erro clássico do atleta amador é voltar dobrando o volume, emendando treinos, aumentando intensidade ou tentando “queimar” o que consumiu. Essa reação emocional costuma gerar o efeito contrário: dores persistentes, sensação de peso nas pernas, queda de rendimento e, em alguns casos, lesões nas semanas seguintes. A adaptação que vinha sendo construída antes da folia não desapareceu. Ela apenas ficou em pausa. E pausa se retoma com inteligência, não com excesso. A primeira semana pós-Carnaval deveria ser encarada como uma semana de reentrada. Reduzir o volume entre 20% e 30%, manter intensidade moderada e priorizar o sono já é suficiente para recolocar o organismo no trilho. Hidratação precisa ser reforçada. Alimentação regularizada. Horários estabilizados. Em cidades litorâneas, o calor e a umidade aumentam a percepção de esforço. Treinos na areia, comuns nesta época, elevam a demanda muscular e articular. Ignorar isso e acelerar o retorno pode sobrecarregar estruturas que ainda estão readaptando. Existe uma diferença importante entre disciplina e punição. Disciplina é constância. Punição é exagero momentâneo. O corpo entende consistência. Ele não responde bem a extremos. Treinar muito por alguns dias para compensar outros não gera evolução sustentável. O que constrói performance seja para quem joga futebol aos fins de semana ou treina corrida depois do trabalho é a soma de semanas organizadas. Depois de períodos fora da rotina, a pergunta não deveria ser “como recuperar o que perdi?”, mas sim “como reorganizar para continuar evoluindo?”. Adaptação não se força. Ela se constrói. Se o Carnaval foi intenso, trate esta semana como ajuste fino. Volte ao ritmo progressivamente. Reorganize o sono antes de aumentar a carga. Hidrate-se antes de exigir intensidade máxima. Retome o planejamento antes de buscar desempenho. No esporte e na vida, o problema raramente é parar alguns dias. O verdadeiro risco está na pressa de voltar.