Tem um moleque de 15 anos na pelada de quinta-feira. Ou talvez seja seu filho, na escolinha da orla, no fim da tarde. Semestre passado ele era o mais habilidoso do grupo. Agora tropeça na bola que dominava de olhos fechados, cai sozinho numa mudança de direção e reclama de um joelho que nunca tinha reclamado. A leitura chega rápido. E chega errada. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Uns dizem que ele desandou. Outros, que ficou preguiçoso, que se distraiu, que perdeu o foco. Alguém sugere cobrar mais, botar ele pra jogar com os mais velhos, ver se acorda. Ele não perdeu nada. Ele cresceu oito centímetros. E isso muda tudo. No estirão, o osso alonga primeiro. Músculo, tendão e fáscia vêm depois, correndo atrás, esticados por uma estrutura que ficou maior antes deles. Não é desequilíbrio de força de vontade. É cronologia de tecido. Ao mesmo tempo, a alavanca muda. Aquela perna não é mais a perna de três meses atrás. É mais comprida, mais pesada, e exige outra dose de força pra acelerar e outra pra frear. Cada apoio no chão, cada salto, cada frenagem antes do drible precisa ser recalculado. O gesto que ele treinou por anos foi aprendido num corpo que não existe mais. Por isso o desengonço. Ele não regrediu tecnicamente. Está reaprendendo a se mover num corpo novo, sem ter pedido esse corpo e sem ter sido avisado. E tem a parte que ninguém soma. Crescer custa. O organismo que está construindo osso, alongando estrutura e reorganizando proporções já trabalha pesado antes de qualquer treino começar. O menino chega no campo com uma carga rodando por dentro que não entrou por nenhuma planilha. É justamente nessa janela que as dores ligadas ao crescimento aparecem com mais frequência. Não é coincidência. Quem cresce mais rápido, principalmente nas pernas, é quem mais aparece na lista de lesão. O detalhe que quase ninguém enxerga: não é amadurecer cedo ou tarde que pesa. É estar crescendo depressa agora. E aqui mora a armadilha do talento precoce. O menino que cresce antes parece pronto antes. Fica mais forte que os da idade, resolve jogo, chama atenção. Então o calendário acelera. Mais partidas, mais categorias, mais viagem, mais expectativa. A estrutura dele passa a ser tratada como adulta porque o desempenho parece adulto. Só que o desempenho é o único dado que amadureceu. O resto ainda está em obra. Na base, o critério de entrada numa categoria quase sempre é a data de nascimento. É o dado mais fácil de conferir e um dos que menos dizem sobre o que aquele corpo suporta hoje. Proteger um jovem fisicamente não é freá-lo. É entender que idade de certidão não diz quase nada sobre o que aquele tecido aguenta neste mês específico. Dois meninos de 16 anos podem estar em fases completamente diferentes do próprio desenvolvimento. Tratar os dois igual não é gestão. É sorte. E isso não termina na adolescência. Existe diferença entre o corpo estar disponível e o corpo estar desocupado. O menino no estirão está disponível, mas ocupado. Você, na semana de sono ruim, mudança de casa, prazo apertado e cabeça cheia, também está. A diferença é que ele tem quem olhe. Você decide sozinho, quase sempre na vontade. A planilha soma o que entra pelo treino. O corpo soma tudo. *Marcel Duarte. Gestor de performance esportiva com atuação no futebol de elite