(Divulgação/Prefeitura de Guarujá) O ano de 2024 foi tão agitado e cheio de acontecimentos no setor portuário que só agora me dei conta de que já acabou. Vontade para escrever sobre tudo o que aconteceu não falta, mas prefiro entreter o leitor com uma tentativa de prospecto para 2025, no setor portuário. Olhando para o lado da navegação, um ponto relevante é a continuidade da insegurança no trânsito de navios pelo Mar Vermelho, por conta dos ataques houthis às embarcações. O desvio das rotas pelo Cabo da Boa Esperança retira capacidade do mercado e mantém os custos mais altos. Com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a queda de Bashar al-Assad, na Síria, estamos hoje mais perto de um desfecho otimista, que pode restabelecer as rotas pelo Canal de Suez, potencialmente barateando os fretes. Mas não há ninguém no mundo ainda capaz de prever o que acontecerá no Oriente Médio. Por outro lado, a chegada de Trump à presidência deve intensificar as guerras tarifárias, alterando a lógica atual das cadeias de suprimentos. Na verdade, esse fenômeno já teve início, com os americanos aumentando seu nível de estoque de produtos importados da China, já em 2024, antes da entrada de novas barreiras tarifárias. Certamente, o nível de complexidade na gestão das cadeias logísticas aumentará e o grau de incerteza também. Cadeias logísticas mais resilientes levarão vantagem aqui. A possibilidade de greves de trabalhadores portuários nos Estados Unidos também tem potencial para atrapalhar o início do ano, gerando caos logístico. O mundo da navegação é tão interligado que uma greve nos portos americanos impacta o fluxo de cargas, a disponibilidade de contêineres e, por consequência, possivelmente o frete de produtos no Brasil também. As más notícias para os embarcadores brasileiros também têm origem aqui, pois a falta de capacidade portuária em nossa costa continuará e a vida dos profissionais de comércio exterior não melhorará. Enquanto a expansão da capacidade disponível não acontecer, as frequentes rolagens de carga, a falta de janelas para retirar/entregar contêineres nos terminais e as dores de cabeça continuarão em 2025. A obrigação de utilizar novas rotas, em função da falta de capacidade, gera desafios adicionais para a segurança, pois o crime organizado pode se beneficiar de portos e terminais alternativos, com menor grau tecnológico, se comparados aos que temos em Santos, por exemplo. A falta de capacidade aqui também continuará impactando na migração do transbordo de cargas de Santos para outros portos. Estudo recente, com o qual tive o privilégio de contribuir mostra que o transbordo cresceu 31% na costa brasileira, de 2011 a 2015, em grande parte por conta da capacidade adicional que entrou em operação em Santos, nesse período. Estamos, hoje, indo na direção contrária. O mesmo estudo também mostra que, se tivéssemos mais capacidade, poderíamos atrair de 25% a 40% mais carga para os portos brasileiros. *Diretor de Investimentos para Américas na APM Terminals