“Com notícias fornecidas pelos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, a Pirelli informa”. Com uma voz aveludada e a trilha frenética, essa vinheta invadia as tardes quentes do Boqueirão, em Santos. O menino, que mal entendia o mundo, ouvia ansioso, À espera de outras canções que nunca tocavam em lugar nenhum. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Um vasto repertório se espalhava pelo enorme rádio que ficava no centro da sala, desde sambas antigos até os novíssimos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e o então garoto Chico Buarque. A mãe cantarolava pela casa, as crianças corriam e um piano invadia a sala “ao cair da tarde”. Pelas ruas, no Fusquinha do pai, as notícias exalavam o azedume da época com seus generais, seguidas pelos resmungos e maldições do velho que, logo a seguir, batucava alguma melodia no volante. Certo dia, ele me chamou a atenção para um lindo samba de um tal João Nogueira, que falava sobre a morte do seu pai. Nunca imaginei que aquele espelho iria se refletir pelo resto da vida. Uma vez, já estudante de jornalismo, fui com o amigo Cláudio Zaidan aos estúdios da Eldorado. Pela primeira e única vez na vida pude ouvir de lá de dentro aquela vinheta que anunciava o noticiário. Me sentia dentro de uma lenda. A Rádio Eldorado foi assim, uma espécie de trilha sonora daqueles tempos. A velha e boa emissora de amplitudes médias. Ela se foi, junto com todas as outras AMs, em 2013. Mas deixou, de certa forma, uma cria, a Rádio Eldorado FM, na frequência 107,3. Pois é: a Rádio Eldorado FM vai sair do ar no próximo mês, após quase 70 anos, contando junto as duas, a antiga AM e a atual FM. Confesso que já havia perdido o bom hábito de ouvir rádio há tempos. As plataformas por demanda acabaram nos transformando em programadores das nossas próprias canções. No entanto, sei e sempre soube que a Eldorado continua firme com a sua excelente programação musical, programas literários, noticiários ao longo do dia, enfim, com a sua velha e boa excelência e uma ótima e qualificada audiência. E isso pode muito bem ser comprovado pelos profissionais que ainda estão por lá. E que prometem levar seus ecos até o derradeiro dia. O rádio talvez esteja se tornando um veículo de outros tempos, assim como o jornal impresso, a TV aberta, entre outros. Da mesma maneira que, um dia, os sites e blogs também o serão, e por aí afora. Alguns deles serão totalmente esquecidos. Outros, no entanto, ficarão para todo o sempre como ecos reveladores de seu tempo. A Rádio Eldorado, sem a menor sombra de dúvida, será um deles.