[[legacy_image_272841]] O Brasil talvez não saiba exatamente, masAstrud Evangelina Weinert, de nome artísticoAstrud Gilberto, foi uma das nossas cantoras mais conhecidas planeta afora. Ela se foi nesta segunda-feira, aos 83 anos, e a repercussão de sua partida saiu em vários jornais de todo o mundo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Nascida em Salvador, filha de mãe brasileira e pai alemão, foi para o Rio de Janeiro ainda menina, em 1947, para morar na então efervescenteCopacabana. No famoso bairro, se tornou a melhor amiga deNara Leão, que lhe apresentouJoão Gilberto, que veio a ser seu marido. Os dois tiveram o filho João Marcelo, contrabaixista e produtor. Em 1963, ela parte com João para osEstados Unidos. Sem nunca ter cantado profissionalmente, participa do álbum Getz/Gilberto, parceria do marido com o saxofonistaStan Getze, como se não bastasse, com arranjos deTom Jobim.Ela cantou no álbum com o clássico Garota de Ipanema. Ela abre a gravação e o marido segue na segunda parte. Como ficou um pouco longa para os padrões da época, alegando que não tocaria no rádio, a gravadora resolve cortar e lançar um single só com a voz de Astrid. O lance de sorte transformou Astrud, por uma grande ironia do destino, na primeira mulher a ganhar um prêmio Grammy deGravação do Ano, em 1965, pela gravação mutilada de Garota de Ipanema. A partir de então, ela se torna um sucesso mundial, sendo a intérprete de uma das gravações mais famosas de uma das canções brasileiras mais executadas de todos os tempos. No mesmo prêmio, ela chegou a concorrer a Artista Revelação, mas perdeu paraThe Beatles, e a Melhor Performance Feminina, perdendo paraBarbra Streisand. Uma curiosidade sobre Astrud Gilberto era o seupavor pelo palco. Mesmo assim, teve uma longa e profícua carreira, gravando 18 álbuns solo de 1965 a 2002, cantando bossa-nova, MPB, standards do jazz e canções americanas e europeias, em inglês, espanhol, francês, italiano e alemão. Sua voz é a bossa-nova por excelência: afinada, suave, sem exageros nem atropelos, um suingue discreto e belas interpretações. Ela conseguiu definir com seu canto, mais do que qualquer outra intérprete, a nossa música mais conhecida e executada no exterior. Apesar do curto casamento com João Gilberto, pode-se afirmar que ela foi uma espécie de alma gêmea feminina do nosso cantor maior. Certa vez, logo após a morte de João, passei uma tarde conversando comJoão Marcelo, filho de Astrud e João, que ficou ao seu lado a vida inteira, a ajudou a gravar alguns de seus discos e tinha um orgulho muito grande dela. Foi uma conversa carregada de melancolia pela perda de pai e, ao mesmo tempo, de lindas informações a respeito dos álbuns de Astrud. Que sua morte sirva agora, sobretudo, para o resgate de uma linda obra, que além de ser carregada de beleza, traz em si a semente da nova canção brasileira. Inventada dentro da sua casa, tanto por ela quanto por seu então marido e amigos.