(Divulgação) O álbum The Boys of Dungeon Lane, de Paul McCartney, é comovente. Lançado no final do mês de maio de 2026, é o primeiro disco do ex-Beatle em cinco anos. O nome a que ele se refere no título é a rua de Liverpool em que moraram ele e George Harrison quando ainda eram meninos. Como ele conta na canção Days We Left Behind, moraram “nos tempos de bares cheios de fumaça e guitarras baratas”. Dungeon Lane é uma viela às margens do Rio Mersey em uma região cheia de conjuntos habitacionais construídos para abrigar famílias que perderam suas casas nos bombardeios no centro de Liverpool durante a Segunda Grande Guerra. Um local antigo de um tempo mais remoto ainda, onde os garotos de futuro incerto perambulavam atrás de suas primeiras aventuras. Minha filha mais velha me perguntou por que o álbum tinha um som tão “abafado”, diferente. E essa é justamente uma das chaves para se entender o que o músico buscava e conseguiu com maestria. O disco soa de fato como se fosse mais antigo até mesmo do que os próprios álbuns dos Beatles. Ele soa, como McCartney se refere na mesma Days We Left Behind, como se estivesse “olhando para trás, para o preto e branco”. E está. O mais curioso e engraçado é que McCartney sempre buscou de maneira até mesmo exageradamente ansiosa se manter moderno. Fez alguns discos pops demais e sempre procurou gravar com artistas mais jovens. Curiosamente, a canção que é disparada a mais executada em seu perfil do Spotify é FourFiveSeconds, com participação de Kanye West e Rihana. Desta vez, em The Boys of Dungeon Lane, não. Ele se entregou de corpo, alma e som ao passado, sem restrições. É um senhor de 83 anos contando e cantando em detalhes a sua infância e adolescência. Alguém que começa a chegar aos últimos momentos de uma vida memorável e resolve parar para pensar em como era antes de tudo, nos primeiros tempos em que ainda era um garoto que passava despercebido entre tantos outros. Para tal, ele resolveu tocar tudo praticamente só, com a participação do produtor Andrew Watt, que fez discos com os Rolling Stones e Ozzy Osbourne. Além dele, participam também na divertida Home To Us, Ringo Starr, em um dueto surpreendentemente inédito. A faixa conta ainda com vocais de Chrissie Hynde, do The Pretenders, e Sharleen Spiteri, da banda escocesa Texas. Ao fim e ao cabo, as canções são algumas das melhores de McCartney dos últimos tempos, o que não é pouco para o compositor de The Long and Winding Road. Ele nos entrega algumas obras-primas, tanto pela construção em si quanto pela tamanha honestidade. Sem receio algum, descreve detalhes da relação dos pais em Salesman Saint e, sobretudo, em Momma Get By, que abre com o verso: “mamãe se vira enquanto papai se embriaga”. Conta sobre uma divertida viagem alucinógena em Mountain Top. Ou, em Down South, lembra sobre outra viagem de fato com o jovem George Harrison. Nela, entre encontros no ônibus para falar sobre guitarras e rock and roll, os "assuntos que nunca envelheceriam", lembra ao amigo que pegar carona de caminhão para o Sul “foi uma boa maneira de te conhecer”. The Boys of Dungeon Lane, de Paul McCartney, é, em muitos momentos, melancólico, sem nunca perder a leveza e o otimismo. Tem um certo tom de despedida em alguns momentos. Em outros, um jeitão de quem teve sempre a vida toda pela frente. E a aproveitou da melhor maneira possível.