[[legacy_image_275861]] Muitos se assustaram quando o ex-beatle Paul McCartneyanunciou no programaToday, daBBC Radio 4, que usoua inteligência artificial (IA) para ajudar a criar o que ele chama de “a gravação final dos Beatles”. Muitos imaginaram que a voz de John Lennon teria sido recriada através da IA em um dueto com o parceiro remanescente. O que ocorreu não foi nem de longe isso. A tecnologia, de acordo com Paul, foi usada para “extrair” a voz deLennonde uma fita demo antiga feita em cassete para que ele pudesse completar a música. “Acabamos de terminar eserá lançado este ano”, explicou ele. Paul não revelou o nome da canção, que provavelmente é um trecho de uma composição de Lennon de 1978 chamada Now And Then. Ela já havia sido cogitada durante as gravações de Anthology, de 1996. A canção estava junto com outras em uma fita cassete chamada For Paul, que Lennon havia gravado em 1980, pouco antes de sua morte. A fita foi entregue a ele porYoko Ono, a viúva de Lennon. Duas dessas canções fizeram parte da série: Free as a Bird e Real Love. Now And Then, no entanto, foi descartada. Os Beatles remanescentes tentaram gravar Now And Then, mas a sessão foi abandonada. McCartney afirmou mais tarde queGeorge Harrisondeclarou a música “um lixo" e se recusou a trabalhar nela. “Não tinha um título muito bom, precisava de um pouco de reformulação, mas tinha um belo verso e tinha John cantando”, disse Paul à Q Magazine. “George não gostou. Como os Beatles são democracia, nós não fizemos”, recorda. Também foi dito que houve problemas técnicos com a gravação original, que apresentava um zumbido persistente dos circuitos de eletricidade no apartamento de Lennon. A virada veio com o documentárioGet Back, dePeter Jackson, onde o editor de diálogosEmile de la Reytreinou computadores para reconhecerem as vozes dos Beatles e separá-las dos ruídos de fundo, e até mesmo de seus próprios instrumentos, para criar um áudio limpo. O mesmo processo permitiu que Paul fizesse um dueto com Lennon em sua recente turnê, e que novas mixagens de som surround do álbumRevolverdos Beatles fossem criadas no ano passado. Não se trata, portanto, de inventar algo que não existe a partir da IA, como já foi, por exemplo, comentado por aqui por ocasião de uma gravação de Um Girassol da Cor de Seus Cabelos, clássico de Lô e Márcio Borges, cantada por um suposto Paul McCartney, que circula pelas redes. No caso dessa gravação, a voz de McCartney foi, de fato, recriada. Já a de Lennon que será usada como a derradeira gravação feita pelo famoso quarteto inglês é a dele mesmo. A tecnologia só foi usada para tirar os ruídos e separar o canto do piano. Apesar de não ter ocorrido (ainda), o medo generalizado de uma reprodução farsesca da voz de Lennon ou de quem quer que seja é pertinente e inquietante. O que se vislumbra pela frente, na música e em todas as áreas, é amplo em possibilidades tanto para o bem quanto para o mal. E, ao que tudo indica, vai ser cada vez mais difícil daqui para frente sabe o que é falso e verdadeiro, o que é mentira ou verdade.