A edição do dia 25 de julho de 1956 desta A Tribuna anunciava discretamente no meio de seu caderno de esporte uma pequena manchete que dizia: ‘Contratou o Santos um moço que promete ser um crack’. A notícia vinha sem foto e sem destaque algum, no meio de uma página repleta de outras matérias de maior importância. A promessa, que virou o maior fenômeno do século 20 no esporte, ficou conhecido como Pelé e é uma das marcas mais impressas, replicadas e compartilhadas da nossa era moderna. Vim ao mundo em 1961, na mesma cidade em que Pelé escolheu jogar. No ano seguinte, o Santos FC virou o primeiro clube brasileiro a ser campeão mundial de futebol. No ano seguinte, repetiu o feito. Estava selado o meu destino de torcedor. Lembro da minha primeira vez no estádio Urbano Caldeira, conhecido mundialmente como Vila Belmiro – eu era um menino de cinco ou seis anos. Na época, não existia tevê a cores e a explosão de tons no estádio me alumbrou para o resto da vida. Assim que o time entrou em campo, meu pai segurou no meu braço, apontou e disse: “olha ele ali”. Era, obviamente, o Pelé, já consagrado, bicampeão do mundo e pronto, no auge de sua forma física, para encantar o mundo na Copa de 1970, no ano seguinte, no México. Dia desses, assistindo à ótima série Nadal, sobre a vida do tenista espanhol Rafael Nadal, fiquei espantado em como ele, o suíço Roger Federer e o sérvio Novak Djokovic se completavam. Um servia de base para os objetivos do outro, e vice-versa. Conhecer as qualidades e as limitações dos adversários colaborava para que os três crescessem como atletas. Juntos, formaram a era de ouro do tênis mundial. No caso de Pelé, nunca houve, nem antes e muito menos depois, parâmetros. Solitário, único, o Rei do Futebol conquistou marcas nunca superadas. A palavra Pelé virou verbete do dicionário Michaelis, em 2023. Foi registrada como adjetivo (masculino e feminino) para definir “aquele que é fora do comum, que ou quem em virtude de sua qualidade, valor ou superioridade não pode ser igualado a nada ou a ninguém”. Pensei logo que Nadal seria o Pelé do Tênis. Qual nada. Há pelo menos outros dois ‘pelés’ naquele esporte. Sempre que aparece um jogador acima da média, alguém logo o compara a Pelé. Os argentinos que o digam, apesar de nunca terem conseguido um craque que chegasse ao menos perto do Rei. O mesmo acontece com os Beatles. Toda e qualquer banda que surge logo é comparada a eles, e a recíproca nunca é verdadeira. Por conta disso, ainda bem menino, tive dois grandes sonhos frustrados. Jogar naquele Santos de Pelé e/ou tocar com os garotos de Liverpool. Poderia ser, por que não, as duas coisas ao mesmo tempo. “À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”, diz o verso de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no imenso poema Tabacaria. Ele também, o Pelé da poesia em nossa língua (há, no entanto, ao contrário do Rei do Futebol, outros pelés em outras línguas). A explicação para como e porque acontecem fenômenos assim talvez nunca seja satisfeita. É coisa para se admirar, guardar e seguir adiante, com o sarrafo inalcançável a nos perseguir para todo o sempre.