O álbum Elis, da cantora Elis Regina, foi lançado pela artista em 1973. Na época, os arranjos foram feitos pelo pianista Cesar Camargo Mariano, a produção ficou a cargo de Roberto Menescal, com o auxílio do então iniciante Marco Mazzola, que veio a se tornar uma lenda da nossa música. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Recentemente, a gravadora Universal Music lançou uma edição remixada do álbum, feita sob o comando de João Marcelo Bôscoli, primogênito da cantora, com o engenheiro de som Ricardo Camera. O trabalho foi feito com o aval de seus irmãos, filhos de César. “Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho. E muitos fãs de Elis me procuravam para dizer o mesmo”, conta João Marcelo Bôscoli. César Mariano, por sua vez, fez duras críticas à remixagem e remasterização do álbum. “...Ouvi (a edição) com tristeza. Tristeza por ouvir todo o trabalho de meses de criação do conceito musical, dos arranjos e das execuções, dos planos de gravação e mixagem, todos estudados e muito bem pensados por nós, jogados no lixo. Estas questões, para mim, não são passiveis de alterações por terceiros”, afirmou ele. Há, no entanto, duas questões aí que são irrevogáveis. César tem todo o direito de dar a sua opinião, manifestar descontentamento. E João Marcelo, junto com a Universal Music, dona do fonograma, tem todo o direito de remixar o álbum de sua mãe. E, diga-se de passagem, não é a primeira vez que ele faz isso. O álbum Elis &Tom, por exemplo, ganhou remixagem em DVD Áudio 5.1, em 2004. Hipoteticamente, ao contrário de um descendente de Leonardo Da Vinci querer dar umas pinceladas na Mona Lisa, remixar um álbum é realizar uma outra versão dele. Isso é feito diariamente pela indústria fonográfica. Não se trata, em momento algum, de refazer, adulterar ou transformar uma obra, mas, sim, de fazer outra a partir dela. A versão original continua por aí, viva e acessível aos fãs. No próprio perfil da cantora se pode encontrar os dois álbuns. Sim, são dois álbuns: Elis, de 1973, e Elis (Mixagem 2026). São inúmeros os exemplos parecidos. Os Beatles, por exemplo, são useiros e vezeiros nisso. Ao abrir a discografia deles no Spotfy, o ouvinte se depara com indicações do tipo The Inner Light - Remastered 2009; Real Love (2025 Mix) e por aí afora. E há, assim como César, inúmeros descontentes com as mudanças. Gente que reclama que a guitarra ficou mais alta na nova versão, que a bateria isso, o contrabaixo aquilo. A esses, sempre existe a possibilidade de ir buscar na própria discografia a versão anterior. Há, no entanto, alguns casos emblemáticos de adulteração. Um dos mais famosos é o da banda inglesa Pink Floyd, que teve os seus álbuns conceituais decepados pela gravadora para criar coletâneas. O argumento da banda é que a obra perde totalmente o sentido com as canções separadas. O mesmo ocorreu com os três primeiros álbuns de João Gilberto, com as suas devidas faixas distribuídas em compilações. Com a chegada das plataformas digitais, esse tipo de abordagem ficou ainda mais complicada. Ninguém impede, por exemplo, que um ouvinte faça a sua própria lista de execuções usando canções aleatórias. Discos, assim como obras audiovisuais e fotografias, são artes que não prescindem da tecnologia. Por conta disso, estão e sempre estarão sujeitas às remixagens, colorizações, cortes do diretor e por aí afora. Dessas transformações, assim como tudo na vida, surgem coisas sérias e bobagens. Sempre, no entanto, com a devida possibilidade de o público correr de volta para a obra original. A propósito, o álbum Elis (Mixagem 2026) ficou excelente. Seu som abriu, ruídos indesejáveis desapareceram, novos instrumentos ficaram mais claros e, sem sombra de dúvidas, a voz de Elis aparece bem mais límpida e vibrante. Mas isso é só a minha opinião.