(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Um vendedor em uma loja de música me falou, referindo-se a teclados, sintetizadores, módulos MIDI, programas de notação e produção musical e daqui a pouco até mesmo aos instrumentos: “Todas essas tranqueiras vão deixar de existir, vão ficar obsoletas em muito pouco tempo por causa da inteligência artificial”. E prosseguiu: “Os aplicativos de música são muito baratos diante do que entregam”, completou sorrindo. Fui embora atordoado e o assunto não me abandonou mais. Após uma certa hesitação, fui experimentar alguns desses aplicativos. Comecei do zero, como se eu nunca tivesse tocado instrumento algum na vida. Pedi que uma geringonça dessas fizesse uma canção no estilo rhythm and blues, cantada por mulher, com vocais, metais e com arranjo à maneira de Quincy Jones, o lendário arranjador e produtor de Michael Jackson e Frank Sinatra, entre muitos outros. Em poucos segundos o aplicativo me deu algumas opções a partir do meu prompt (aqui vale uma nota aos leigos, ou quase: o tal prompt é a quantidade de instruções que o usuário dá ao programa). Para meu espanto, o resultado, a partir das minhas informações, apesar de bisonho, com letras pueris (sim, ele fez tudo, letras inclusive), não ficou nem um pouco longe do que se ouve por aí. O mais espantoso é que ficou mesmo com a cara dos arranjos do Quincy Jones, com linha de baixo, bateria, metais, piano, guitarra e tudo o mais que eu quisesse ou pedisse. A voz era bem agradável e afinada, os vocais (sim, caro leitor, tinha vocais) eram afinados e o conjunto da instrumentação, extremamente competente. Para completar, o produto final veio com uma excelente qualidade sonora, pronto (como dizem os produtores) para ir ao ar. Confesso que perdi o sono. Acordei no meio da noite e não parei de imaginar as possibilidades que a IA pode nos trazer, e também o atoleiro em que ela pode nos enfiar. De cara, imaginei todos nós, inclusive meus amigos e conhecidos produtores, donos de estúdio e congêneres, desempregados, caídos na vala comum. Daqui para frente, qualquer um faz música, grava, elabora o produto final, e pronto. Calma, não é bem isso – mas, sim, é quase isso. A IA jamais fará – e isso é bem óbvio – uma letra de uma canção como o Chico Buarque, ou até mesmo como um provável talentoso leitor que esteja agora me acompanhando. Não construirá, de maneira alguma, melodias e harmonias como Tom Jobim, por exemplo. Pode até criar pastiches, imitações baratas ao estilo dos dois gênios da nossa música, mas nunca fará uma nova Anos Dourados. Mas é capaz, sim, de fazer, e com sobra, produções como as que ouvimos diariamente em programas de TV, rádio, sucessos de plataformas digitais, jingles etc. A grande massa de coisas que ouvimos diariamente tem uma utilidade direta e descartável. Serve para aberturas de programas, vender produtos e, na pior das hipóteses, acompanhar possíveis sucessos descartáveis. E aí, nesses casos, a IA resolve e pronto. É claro, vai desempregar, e muito, em um mercado que já não é pródigo em gerar trabalhos e vagas. Por outro lado, e isso fica para um outro artigo, esses aplicativos de IA me parecem excelentes ferramentas para finalizações de gravações, entre outras coisas.