Alceu Valença comanda o São João do Alceu direto de sua casa, de hoje até domingo, junto com banda (Divulgação) É ele mesmo quem conta que quando chegou no Rio de Janeiro, em meados da década de 70, corria as gravadoras e ouvia: “você não tem nenhum sambinha no estilo Antônio Carlos & Jocafi?”. Na época, a dupla baiana tocava nos quatro cantos do País, sobretudo com o megassucesso Você Abusou. Orgulhoso e já bem famoso, Alceu Valença completava a frase: “hoje, se vocês forem na gravadora, vão perguntar: ‘você não tem nada no estilo de Alceu Valença?”. Isso foi contado por ele no show de lançamento do álbum Cinco Sentidos, de 1981. E isso levando em conta que o auge mesmo do seu sucesso viria apenas no ano seguinte, com o álbum Cavalo de Pau, que trazia, entre outras Morena Tropicana, dele e Vicente Barreto. Alceu, um artista único e que jamais fez meia concessão aos produtores das grandes gravadoras, chegava, com este álbum, a um milhão de cópias vendidas. Não havia e nem houve a seguir nada parecido em nossa música. Ele fazia parte de uma geração de nordestinos transgressores, cabeludos, que misturavam os cordéis, xotes e xaxados ao rock, às guitarras elétricas, sintetizadores. Vale destaque aqui para o seu inseparável guitarrista Paulo Rafael, morto em 2021. Somado a isso tudo, ele sempre foi um mago do palco. Com elementos circenses, gestos largos e uma energia eletrizante, uma apresentação de Alceu Valença é algo inesquecível. O criador, organizador e idealizador do Festival de Águas Claras, em Iacanga (SP), Antonio Checchin Júnior, conhecido como Leivinha, afirma no filme O Barato de Iacanga, de Thiago Mattar: “o maior show das quatro versões do festival foi, sem dúvida alguma, o de Alceu Valença”. É bom lembrar que passaram por este festival o que havia de melhor na nossa música até então, entre eles: Armandinho, Dodô & Osmar, Arthur Moreira Lima, Egberto Gismonti, Fagner, Sivuca, Premeditando o Breque, Sandra Sá, Paulinho da Viola, Sá & Guarabyra, Erasmo Carlos, Wanderléa e João Gilberto. Somado ao canto e à performance de Alceu está o seu talento de compositor. Com meia dúzia de acordes, fez algumas das canções mais belas do nosso cancioneiro. Sua obra traz influências múltiplas, que vão das já citadas canções nordestinas e o rock até mantras indianos, entre outras. Algumas de suas composições têm uma beleza inexplicável, simplicidade e sensualidade que fazem explodir multidões. Não há quem não tenha passado por essas plagas que não tenha entoado a plenos pulmões o refrão poderoso de Anunciação: “Tu vens, tu vens, eu já escuto seus sinais”. Alceu Valença é uma alegria da vida, de um Brasil que pulsa e luta, orgulhoso de suas festas, de sua cultura popular. Pernambucano de Olinda, dos carnavais e canaviais, virou cartão postal do próprio estado em modo permanente de poesia e festa. Neste mês de julho, Alceu chegou a inacreditáveis 80 anos, ainda pulando, compondo e cantando feito moleque. Um artista imprescindível, vindo diretamente de um país que dá certo e se orgulha disso.