(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) A Inteligência Artificial é uma ferramenta fantástica. É capaz de solucionar coisas incríveis. Problemas que até então não tinham saída, ela vai lá e pronto. Um dos exemplos é a voz de John Lennon na canção Now and Then, última gravação dos Beatles. Ela havia sido deixada de lado pelos remanescentes da banda pela impossibilidade de separá-la de outros instrumentos e ruídos. Anos depois, a IA foi lá e separou com facilidade. E ficamos com uma última gravação límpida da banda. O grande problema, no entanto, começa quando não há nem John Lennon e nem nada, mas apenas um prompt onde alguém que nunca tocou instrumento algum vai lá e comanda: “faça um arranjo de um samba em dó maior com cavaco, violão, tamborim, surdo e coral com este determinado tema e essas palavras. Ah, deixe um espaço para eu colocar a minha voz”. Feito feitiçaria, o aplicativo dá ao leigo uma ou várias opções de uma gravação capaz de enganar os incautos e virar, no meio da qualidade reinante, um sucesso. O fato não teria tanta importância assim, não fosse a estarrecedora informação divulgada pela plataforma Deezer. Em junho deste ano, mais de 50% das músicas que subiram à plataforma – o número astronômico de 90 mil faixas – foram geradas por IA. Mais estarrecedora ainda é a informação de que nenhuma das plataformas, exceto a própria Deezer, que vai retirar todas, pretende fazer nada contra o fato. Há um sistema de detecção que consegue identificar facilmente o que foi composto por essas tecnologias. Spotify, Apple Music e YouTube Music reagiram todas de maneira vaga e com certa condescendência sobre a tecnologia. Não bastasse iso, a Deezer ainda identifica que uma parcela significativa do consumo dessas canções é uma fraude. A empresa afirma que até 70% das execuções de faixas 100% geradas por IA são realizadas por bots programados para inflar artificialmente o número de reproduções e desviar recursos destinados ao pagamento de direitos autorais. E isso, diga-se de passagem, também ocorre com obras criadas de maneira orgânica. Há várias bandas e artistas nas plataformas, que o leitor nunca ouviu falar na vida, com milhões de execuções. Isso se dá graças à esperteza e habilidade em usar as plataformas e seus devidos algoritmos para simular execuções e, consequentemente, surrupiar direitos de quem de fato toca. Para o ouvinte médio, e muitas vezes até mesmo para os mais assíduos e experimentados, distinguir algo produzido por IA de uma canção orgânica não é tarefa fácil. Há, lá no fundo, uma vaga sensação de que quase tudo o que se houve é muito parecido, medíocre e sem imaginação. E é mesmo. Por mais rapidez no processamento e reorganização de dados, a chamada Inteligência Artificial não tem a inteligência mais valiosa de todas: a criativa. É capaz de simular, fazer parecer, enganar. Mas não de criar. A tecnologia, e isso é uma benção, foi o que mais se desenvolveu nas últimas décadas. Ela deixa, no entanto, um rastro de desafios, distinções, fake news. Carece, enfim, em todas as suas áreas de atuação (que são todas hoje em dia) da chamada regulamentação. O ouvinte, no final das contas, se sentir satisfeito em consumir mentiras, simulacros e músicas reinventadas é, no mínimo e por princípio, um atentado à educação e à cultura. Deve ser repudiado e criminalizado. A própria IA é capaz de discorrer longamente sobre esses perigos e como têm se posicionado os vários países sobre o assunto. Basta pesquisar e usá-la para o bem, como a grande ferramenta que é.