Falar da atuação de Telma de Souza, particularmente na Prefeitura de Santos, é chover no molhado. Desde a sua morte, na noite do último sábado, diversos jornais, políticos e articulistas se ocupam disso. A Telma de quem quero falar é outra. A Telma das artes e da cultura, apaixonada por música, pintura, cinema. Enfim, a Telma que tanto fez pelo setor em Santos. Para tal, é preciso voltar algumas décadas no tempo. Um dos nossos passeios preferidos, meu e do amigo e parceiro Cláudio Zaidan, no final da década de 1970, era frequentar a casa da Telma, na época, a casa da Dona Ilda. Por lá se espalhavam pela sala vários artistas, intelectuais e educadores. Só para citar alguns, lembro bem da Beatriz Rota Rossi, Daniel Bezerra e Edméa Ladevig. Nós éramos garotos de uns 19, 20 anos e vez ou outra tocávamos nossas canções para aquela atenta e selecionada plateia, que dava seus palpites, elogiava, esculhambava – enfim, era extremamente honesta conosco. Ao mesmo tempo, aprendemos tudo o que foi possível sobre arte e cultura naquele ambiente repleto de sabedoria e, claro, de política. Em 1982, Telma se tornou vereadora. O que se passou dali em diante foi uma sucessão vertiginosa de fatos que a transformaram na primeira, e única mulher até hoje, a governar a cidade de Santos. A gestão de Telma na Cultura não foi nem um pouco diferente do que a gente poderia esperar, a partir do que se via e vivia na sala da Dona Ilda. Ela nomeou o então jovem professor de história Reinaldo Martins como secretário de Cultura. Juntos, criaram a Gibiteca e o Cine Arte Posto 4. Fundaram o Centro da Memória Santista, que anos mais tarde daria origem à atual Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams). Retomaram a Bienal de Artes Visuais, desativada havia 18 anos, inauguraram bibliotecas em várias partes da Cidade, inclusive nas mais longínquas e quase sempre esquecidas por outras administrações. Criaram a Hemeroteca Roldão Mendes Rosa, espaço pioneiro voltado à preservação, organização e consulta pública de jornais, revistas e periódicos. Também no Centro de Cultura Patrícia Galvão, inaugurou o Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo. Como se ainda fosse pouco, criaram a Revista Artéria, excelente e densa publicação de cultura. Poucos sabem, mas foi durante o governo da Telma, sob Reinaldo, que foi criado, em dezembro de 1989, o Fundo de Assistência à Cultura de Santos (Facult), um dos dispositivos mais importantes para a arte e cultura da Cidade. Por ele, foram montados espetáculos, lançados discos, livros que, se não fosse por ele, ficariam engavetados. Anos depois, como vereador, o próprio Reinaldo reformulou e expandiu o Facult, a partir de conversas e encontros com a comunidade artística. Telma nos deixou sem realizar o grande sonho da sua vida: voltar a ser prefeita da Cidade que tanto amou. Sua marca, no entanto, mais de 30 anos depois, está em todas as partes. Neste pequeno texto, tentei lembrar de algumas delas (devem ter faltado muitas) na área que me concerne.