Dia desses, ao assistir a excelente série Escadaria, à disposição na Netflix, me deparei com uma cena que me levou ao mais fundo do passado. Nela, o protagonista, o escritor Michael Peterson, interpretado de maneira arrebatadora pelo ator Colin Firth, relembra a sensação ao ouvir pela primeira vez a Sinfonia no 5, do compositor checo-austríaco de origem judaica Gustav Mahler. O personagem lembra, em meio ao mais profundo luto pela esposa – cuja morte é atribuída a ele – o momento em que, apesar dos seus pedidos, o pai desliga o rádio e sai do carro. A mãe, sozinha com o filho ainda criança, volta a ligar o aparelho. Ele, então, descreve nunca ter, até então, ouvido nada tão belo e entra em epifania, revelando seu primeiro e inesquecível contato com a música erudita. A cena me conduziu imediatamente a outros instantes parecidos, que tanto eu, quanto vários leitores, devem ter vivido nos primeiros momentos de suas vidas. Com a alma limpa e os ouvidos sem nenhuma saturação, somos uma porta aberta ao encantamento. Ato contínuo, no entanto, me veio outra sensação, muito pior e mais perversa. No caso do personagem, o pai desligou o rádio, arbitrariedade imediatamente reparada pela mãe. No meu, e talvez no de muitos, quem desligou o som foi o entorno. Explico. Ouvir música é, acima de um prazer individual, um ato coletivo, um signo compartilhável. Nele, a depender do que se está escutando, você pode ou não ser aceito pelo seu entorno, pela ‘sua turma’. Ouvir Mahler, por exemplo, nas ruas da minha infância, poderia significar sua exclusão definitiva, uma total e completa exposição ao ridículo. Não era preciso ir tão longe. Adorava as marchinhas de Lamartine Babo, que ouvia nos ótimos fascículos da Abril Cultural que meu pai trazia para casa. Aquilo era motivo de imensa gozação pela molecada da rua, afeita a bandas como Slade, AC/DC e congêneres. Pior do que isso, já no início da década de 1970, apaixonado pela música dos Beatles, era obrigado a ouvir todos os dias que o grupo ‘já era’, gíria que, por conta disso, se tornou insuportável pra mim desde então. Ao entrar na vida adulta, tudo isso se dissipa. Graças a amigos mais velhos e bem informados, mergulhei sem medo em todo e qualquer tipo de música. Um enorme espectro que vai de Tonico e Tinoco à Sagração da Primavera de Stravinsky invadiu meu toca-discos sem medo. Tomei como lema para a vida por conta daqueles gracejos insuportáveis uma ampla, total e irrestrita falta de preconceito contra qualquer tipo de música. O grande xis da questão, no entanto, é que o apartamento musical é recorrente e cada vez mais repartido, compartilhado. O mundo não se divide mais entre os modernos roqueiros, sambistas e aqueles caretas que ouvem música de concerto. O esquadrinhamento, graças à indústria fonográfica, se desdobrou em milhares. E esses milhares são turmas, guetos, grupos sociais que invariavelmente não se misturam. O jovem é basicamente condenado a, mais do que ouvir, ser um funkeiro, pagodeiro, metaleiro e por aí afora. O arrebatamento do então garoto Michael Peterson sobreviveu no escritor, apesar do pai. Me pergunto o quanto foi decepado e morto dentro de nós, por causa desse entorno. Desta onda invisível que insiste em nos fazer iguais ou parte de um todo, consumidores vorazes em vez de indivíduos.