Maré alta causa alagamento no Santa Maria, na Zona Noroeste de Santos: situação é uma das que devem merecer investimentos em 23 (Alexsander Ferraz / AT) Para enfrentar um desafio, precisamos nos preparar. Isso significa estudar, entender e planejar. A maioria das cidades brasileiras ainda não está preparada para desenvolver resiliência climática. Tê-la significa possuir a capacidade de prever, preparar-se e responder aos impactos das mudanças climáticas com eficiência. De uma maneira geral, percebemos os impactos das mudanças climáticas nas secas, chuvas, frio e ventos extremos, granizo em volume, raios, tornados, ciclones e até mesmo incêndios. A melhor resposta a esses impactos é evitar que aconteçam. Porém, as pessoas pensam que o melhor é o atendimento aos danos causados pelos impactos, quando ocorrerem. Não é, e darei exemplos para defender melhor minha afirmação. Acredita-se que estar preparado para os eventos climáticos extremos é ter água, lonas, comida, colchões, para distribuir quando faltarem, equipamentos de resgate, entre outras formas de enfrentamento, enquanto estar realmente preparado, na verdade, é ter tudo isso e não precisar utilizar. Não é uma tarefa simples e requer muito estudo, planejamento e tomada de decisões impopulares que, segundo a visão política, “não traz votos”. O conceito de cidades esponjas, por exemplo, é uma forma de se preparar para evitar que ocorram alagamentos e inundações. Ele envolve desde os sistemas de drenagem estarem limpos e bem dimensionados, até a presença de parques temporariamente alagáveis, telhados verdes e calçamentos permeáveis. A poda preventiva de árvores para evitar quedas de galhos e interrupção do fornecimento de energia durante vendavais é outra maneira de se preparar para não sentirmos os efeitos das tempestades. A fiscalização de construções e permissão apenas das que possuam alvará da prefeitura, garantindo aplicação dos planos diretores, é outra forma de mitigar impactos. Incentivar o uso de telhados parafusados, sistemas de captação e reuso de águas das chuvas, cisternas de armazenamento de água, sistemas off-grid de produção de energia fotovoltaica e eólica, também fazem parte deste preparo. Como dito antes, são medidas que, além de impopulares, exigem investimento e planejamento de longo prazo, mas este é um dilema que deve ser enfrentado, debatido e ponderado, construindo as soluções junto com a população. A maioria das nossas cidades ocupa as áreas das bacias inundáveis dos rios. Quando um rio enche, mas não transborda, ele está em um processo normal chamado enchente. Mas quando transborda e suas águas saem do leito para a bacia inundável (ignorada pela população) e que também é algo natural, o processo é o de inundação e traz danos. Os planos diretores e a ocupação urbana brasileira, por décadas, ignoraram esse segundo fenômeno, permitindo a ocupação urbana destas áreas. Já o alagamento ocorre mais localizado, em uma rua, bairro ou região, e normalmente está relacionado à drenagem com problemas e demasiada impermeabilização do solo. Ao aplicarmos soluções baseadas na natureza, como parques inundáveis nessas áreas, para atuarem como “escape” durante as chuvas, evitamos os danos nas proximidades. Nas cidades costeiras, o alagamento é muito comum quando a chuva coincide com maré alta e o princípio de cidade esponja é muito eficaz para esses casos. Cidades portuárias em especial, devem olhar para essa solução, a fim de não colapsar suas atividades. Ao implantarem esses princípios, trarão muita diferença na hora do caos. Em breve, canais extravasores, pôlders e bacias de contenção serão itens obrigatórios e realidade em cidades costeiras brasileiras que queiram ser resilientes, como foi feito em Roterdã (Holanda) e Copenhage (Dinamarca). O atingimento dessa resiliência e o enfrentamento ao Super El Niño iniciam na mudança de visão individual a partir de cada um de nós. Boa navegada.