(Reprodução) Tinguinha achou que tinha dormido de um dia para o outro quando despertou do sono profundo. Mas já tinham se passado três meses desde que bateu com sua moto no ônibus. Sem entender o que estava acontecendo, soube do ocorrido pelos médicos, preocupados com o seu retorno à vida consciente. Ele tentou se levantar, as pernas bambas, o corpo não respondia. O desespero bateu. O tempo passou e um dos amigos foi contundente pelo agravo da situação: “Você nunca mais vai surfar do jeito que você surfava!”. Essa frase ficou gravada na sua cabeça e funcionou como um efeito reverso. Foi o incentivo para ser o que ele jamais deixaria de ser. Um atleta determinado a ganhar títulos, muitos títulos. Campeão paulista em 1978 e de contrato fechado com a OP Surfwear e a Costa Norte Surfboards, a carreira de Tinguinha tinha dado uma guinada antes do acidente. Em 1979, foi vice-campeão no Rocky Point, com premiação de Cr\$ 20 mil para o primeiro lugar e Cr\$ 10 mil para o segundo, o que atraiu surfistas do Brasil inteiro. Tinguinha fez a final e perdeu para Paulo Rabello. O ano ainda seguiu com nova vitória pelo Paulista. Em 1980, Tinguinha foi vice no Campeonato Nacional na Praia do Tombo, perdendo para o Paulo Tendas. Tinguinha ganhava títulos e novos hábitos. O atleta tinha acabado de trocar uma prancha pela moto Garelli do amigo Ronaldo Serapião. Ele estava com a motocicleta parada nas Astúrias e resolveu dar uma volta no Sobre as Ondas, cruzou a contramão e pegou o ônibus de frente. Era a interrupção de um sonho. Entre março e julho de 1981, o atleta entrou em coma. A retomada, com muita fisioterapia e perseverança, aconteceu em menos de um ano. Determinado, viu a carreira explodir em 1982. Tinguinha correu 24 campeonatos, alcançou 15 vitórias, quatro segundos lugares, dois terceiros, um quarto e quinto colocado. O surfista foi campeão brasileiro pela Associação de Surf de Ubatuba, feito que repetiria nos dois anos seguintes, competindo no Campeonato Nacional, organizado pela Prefeitura de Ubatuba (1983) e no Festival Brasileiro Cidade de Ubatuba (1984). Durante sua trajetória de sucesso, Tinguinha se aproximou e fez grandes amigos, verdadeiros mentores de sua carreira, como Paulo Rabello e Cisco Araña. Os dois surfistas foram grandes mestres orientadores na carreira do atleta. Paulo e Cisco alertaram Tinguinha em relação a alguns vícios no mar, dicas para competições, como marcação em baterias, e os caminhos para alcançar melhores resultados. Outro anjo na sua vida foi o Rafael da Costa Norte. Além de patrocinador, Rafael participava ativamente da preparação do atleta. Muitas vezes ele deixava seus afazeres profissionais e levava Tinguinha para surfar em Itamambuca. Entre 1978 e 85, Tinguinha morou em Ubatuba, reduto da Costa Norte. Ele alternava alguns dias para visitar a mãe no Guarujá e nas viagens para competir pelo Brasil, seja na Bahia, em Saquarema ou em Santa Catarina, colecionando títulos e mais títulos. Em 1985, Tinguinha fechou contrato com a Hang Loose e foi disputar o Match Bali, no Recife. No ano seguinte, viveu o inesquecível Hang Loose Pro Contest, na Praia da Joaquina, com a presença de grandes campeões mundiais que vieram prestigiar o campeonato, a exemplo de Mark Richards, convidado da Hang Loose. Tinguinha disputou uma bateria pau a pau com Robbie Page e impressionou Richards. O australiano ofereceu a Tinguinha patrocínio e treinamento para disputar o World Cup na Austrália. Apesar de tudo acertado entre Alfio da Hang Loose e Mark Richards, Tinguinha acabou declinando do convite. A chance de disputar o Circuito Mundial só voltaria em 1989, já sob o patrocínio da Sundek. Tinguinha é considerado um precursores do surfe moderno. O estilo arrojado acompanhou a trajetória do atleta durante sua carreira. Em 1990, ele voltaria a conquistar o título brasileiro, o Circuito Nacional pela Abrasp, feito que repetiria em 1993, quando se tornou o surfista mais velho a conquistar o título, aos 29 anos. No ano seguinte integrou a elite mundial do surfe, os Top 44 da ASP (Association of Surfing Professionals). Aos 60 anos de idade, Tinguinha vive em Camburi com sua esposa Marcela, companheira há 29 anos. Os dois se conheceram no campeonato Reef Brasil, em 1996 e se casaram dois anos depois. Tinguinha e Marcela são proprietários das lojas Saíra em Boiçucanga e Camburizinho. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal