No número 167 do Canal 5, em Santos, começou uma história que atravessaria mais de cinco décadas de surfe. Era 1971, e Ronildo – ou simplesmente Roni, apelido que recebeu ainda na infância – nem imaginava que uma simples revista americana mudaria o rumo de sua vida. Quem trouxe a publicação para casa foi sua irmã, a comissária de bordo da Pan Am, Regina. Uma de suas páginas exibia o anúncio de uma locadora de automóveis. O carro pouco importava. O que chamou a atenção de Roni foi o surfista fotografado ao lado da prancha de um intenso tom alaranjado. Bastou aquela imagem para despertar sua curiosidade. A primeira missão foi encontrar uma prancha. Ela apareceu de forma improvável, no Colégio Braz Cubas, onde estudava. Vermelha e branca, feita de isopor, revestida com celofane, cola cascorex e manta M1, equipada com quilha de acrílico, aquela prancha refletia bem a realidade do surfe brasileiro do início dos anos 1970, quando a criatividade compensava a falta de acesso à tecnologia e materiais específicos. Foi com ela que Roni entrou definitivamente para o mundo do surfe. Enquanto aprendia a deslizar nas ondas do Canal 5, outro caminho começava a se abrir. Nos fundos da casa da família nasceu uma pequena fábrica artesanal de pranchas. Dela surgiram, em momentos diferentes, a Roni Surfboards, a Ronil Surfboards e a RGS Surfboards. Mais tarde, em parceria com Marcelo Fukuda, viria também a Sea Surfboards, ampliando uma trajetória dedicada à fabricação de pranchas. Naquela época o Canal 5 era muito mais do que um pico de surfe. As muretas do canal de frente à avenida reuniam uma grande tribo para conversar sobre ondas e pranchas, entre eles os irmãos Fukuda e Cangiano, Tony Barletta, Pierre, Miguel Português, Fernando, Toninho, Dedé, Vovô, Daniel (irmão do Tchaca) e Mário Casca. Foi também por intermédio da irmã Regina que outra mudança marcaria sua trajetória. Em uma viagem à Califórnia, ela trouxe uma Con Surfboards muito diferente de tudo o que existia por aqui. O modelo era uma Sundance, revestida com tecido colorido, equipada com quilha de encaixe e decorada com uma grande borboleta formada por desenhos cuidadosamente trabalhados. Mais do que uma prancha, era uma referência do que havia de mais moderno na Califórnia e uma inspiração para quem já começava a fabricar suas próprias peças. Seguindo esse caminho, Roni conheceu outro personagem decisivo em sua formação. O amigo Ika Cangiano o apresentou a Eduardo Faggiano, o Cocó, que se tornaria seu mestre na fabricação de pranchas. Com ele vieram novos aprendizados, novas técnicas e uma visão ainda mais ampla sobre o trabalho de um shaper. Entre idas e vindas, surgiu uma oportunidade que parecia improvável para um garoto do Canal 5. Recomendado pelo lendário Jonny Rice, Roni embarcou para a Califórnia para trabalhar na própria Con Surfboards, marca que ele já admirava muito antes de imaginar que um dia faria parte de sua equipe. A experiência nos Estados Unidos representou um enorme salto profissional e pessoal. Depois de alguns anos e já com algumas economias, voltou ao Brasil. Ao lado das irmãs Auri e Regina, inaugurou a Roni Surf Shop, em Santos. Mais tarde, a loja também chegou à cidade de São Paulo. Durante anos, viveu seu auge, tornou-se referência entre os surfistas e escreveu um capítulo importante na história do comércio especializado em surfe. Hoje, morando na Flórida ao lado da família e dos netos, Roni leva uma vida mais tranquila. As longas remadas deram lugar aos passeios de bicicleta e às caminhadas pelos parques. As ondas, como ele próprio diz, ficaram para os mais jovens aproveitarem. Ao recordar toda essa trajetória, resume sua história com uma frase simples, mas carregada de significado: “Foi lindo enquanto durou”. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal