Gui Mattos foi surfista profissional antes de se tornar arquiteto. Formou-se em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) de Santos, em 1986, e construiu uma carreira marcada por casas, clubes, edifícios, pousadas e condomínios. Mas a Praia da Grama, em Itupeva, colocou suas duas experiências no mesmo projeto: construir, no Interior de São Paulo, uma praia para quem aprendeu a procurar ondas no mar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O projeto começou em 2019, a partir da ideia do empresário e surfista Oscar Segall, da KSM, ao lado do filho, Caio. A proposta parecia improvável: como aproximar o surfe de quem vivia longe do Litoral? A resposta foi uma piscina capaz de produzir ondas programadas, previsíveis e perfeitas para a prática do esporte, com tecnologia da espanhola Wavegarden. Quando Gui Mattos entrou no projeto, a ideia ganhou outra dimensão. O arquiteto passou a trabalhar em uma situação pouco comum: a arquitetura precisava se adaptar à geometria necessária para produzir a onda. A piscina tem um desenho radial rígido, e todo o espaço foi organizado a partir dele. O resultado é uma arquitetura que se abre para o surfe, funcionando também como arquibancada e lugar de convivência. À frente do projeto arquitetônico estava Gui Mattos, com Marcos Ribeiro como arquiteto líder. O paisagismo ficou a cargo de Benedito Abbud. Não era simplesmente construir uma piscina e colocar uma praia ao redor. Era criar um ambiente capaz de reproduzir, no Interior, uma experiência que até então pertencia ao Litoral. A Praia da Grama acabou atraindo algo que vai além dos visitantes. Alguns surfistas decidiram mudar a própria vida para perto das ondas. É o caso de Marcelo Grubba, que deixou o Litoral para morar no Interior e se tornou o primeiro campeão em uma competição interna - entre os condôminos -, realizada pelo Grama Surf Club. A história de Marcelo carrega ainda outra ligação com o surfe. Sua mãe, Kátia Grubba, foi a primeira mulher a vencer um campeonato de surfe em Santos, em 1968. Décadas depois, o filho protagonizaria outro momento de pioneirismo, agora diante de ondas perfeitas. Richard Alves é outro exemplo dessa mudança. Surfista e sócio da Editora Gaia, especializada em publicações ligadas ao surflife, também escolheu morar na Praia da Grama. A relação com o lugar ultrapassou o próprio surfe: sua esposa aprendeu a surfar ali. A Praia da Grama também entrou para a história das piscinas de ondas ao receber uma etapa da WSL, vencida por Miguel Pupo, em 2023. Foi mais um marco para aquela estrutura que, até pouco tempo antes, parecia uma ideia impossível: uma onda perfeita no Interior de São Paulo. Por trás dessa transformação estão Oscar e Caio Segall, da KSM, os empreendedores que acreditaram na possibilidade de levar uma experiência de mar para o Interior. E, ao lado deles, uma equipe que precisou transformar a lógica do oceano em arquitetura, paisagismo e tecnologia. Talvez seja esse o aspecto mais interessante da Praia da Grama. Ela não apenas reproduziu uma onda. Criou uma nova relação com o surfe. Surfistas que vieram do Litoral passaram a morar no Interior; famílias passaram a aprender a surfar ali; competições internacionais chegaram à piscina; e um arquiteto que foi surfista profissional ajudou a transformar uma ideia improvável em paisagem. No fim, a Praia da Grama talvez seja isso: não exatamente uma praia longe do mar, mas a materialização de uma pergunta que todo surfista já fez um dia: e se fosse possível construir a onda perfeita? Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal