[[legacy_image_320110]] Fugindo da Primeira Guerra Mundial, os avôs paternos de Nicola deixaram a província italiana de Polignano a Mare e desembarcaram em Santos. Nicola Scatigno e Ana Maria Schena Scatigno se estabeleceram em São Paulo, no Bairro Brás, onde tiveram seus dois filhos, André e Dina. O avô se tornou um empresário do ramo de casas lotéricas e se mudou para Santos, na Galeão Carvalhal, no Bairro Gonzaga, deixando o negócio para André. Vivendo e trabalhando na Capital, André conheceu e se casou com Maria Emília Cerqueira, natural da cidade de Casa Branca. Juntos, tiveram três filhos: Nicola, André e Vinícius. Nascido em São Paulo, no dia 9 de novembro de 1949, Nicola Scatigno Neto teve seu primeiro contato com o mar nas férias escolares, e assim descobriria o surfe com o amigo Martins. Os dois fizeram suas primeiras pranchas de madeirite com os tapumes das obras do bairro. Os amigos evoluíram e procuraram novas referências, especialmente em revistas importadas como a Popular Mechanics. Nicola casou e veio morar em Santos, onde teve dois filhos, Gustavo e Rafael. Ele fixou residência no Canal 2 e enquanto subia e descia a Serra para seguir os passos do pai nos negócios, conheceu a turma do Canal 1, entre eles, Pestana, Bulina, Zé Cláudio, Zé Moréia, Catatau e Cisco. Transitando pelo Gonzaga, na casa da avó - agora viúva - Nicola acabou aproximando os surfistas de outras praias como Chico Preto, Jacuí e os irmãos Fukuda. As surftrips foram ganhando espaço na vida de Nicola. Uma barca histórica para Saquarema envolveu o amigo Bulina e um gringo que passava uma temporada no Brasil, pois o pai estava a serviço da Union Carbide, em Cubatão. Os santistas ficaram alucinados com a sua Jacobs Surfboards e as inéditas parafinas para pranchas. Os três seguiram viagem para o Rio a bordo de um Fuscão preto, desbravando picos do litoral carioca, antes mesmo da Ponte Rio-Niterói fazer a travessia. Nicola também tinha um Galaxy que ele deixava do lado do Guarujá e, aos fins de semana, a turma formada pelos irmãos Salazar, Rivaldo, Paulo Pé e Cavalo, entre outros, se juntava na carona que seguia pela ilha até chegar à Praia de Iporanga. O condomínio era particular e o acesso permitido apenas com autorização por escrito. Nicola tinha o contato e conseguia a liberação, limitada para três pessoas. Eles se identificavam na portaria e quando chegavam à praia, ia brotando do enorme porta-malas do Galaxy ou escondidos dentro do carro uma trupe de surfistas que dominavam o pico. O surfista também participou de inúmeros campeonatos, que se tornaram memoráveis, não apenas pelas conquistas, mas pela epopeia dos santistas que percorriam o caminho pelas estradas do litoral, trechos de praia, acampamentos, e as inesquecíveis confraternizações em bares, torneios de futebol, crescendo no convívio com os cariocas, detentores da hegemonia do surfe na época. Na casa número 38 da Galeão Carvalhal, Nicola protagonizou um feito histórico: ele reuniu os amigos, improvisou um telão e passou o filme da Zephyr Surfboards para a galera reunida na sala da casa da avó. O evento foi inclusive anunciado na coluna do jornalista Murilo Lima, em A Tribuna. Enquanto fabricava suas próprias pranchas, Nicola programava uma viagem para o exterior para participar de um campeonato em Punta Del Este, depois Peru e Havaí, ao lado de Cisco e outros. Um episódio trágico interrompeu os seus planos. No dia 27 de dezembro de 1980, a lotérica em São Paulo foi assaltada, Nicola e o pai foram atingidos pelos assaltantes. O jovem passou por uma recuperação delicada, pois teve seu pulmão perfurado. Sem abandonar os esporte, ele se dedicou à corrida, natação, motocross e outras atividades. Nessa época, incentivado pelo Pestana, Nicola tornou-se um mergulhador autônomo. Os dois mudaram-se para São Sebastião e trabalharam juntos em atividades ligadas ao mergulho profissional, fazendo inspeções e monitoramento nas plataformas da Petrobras. Seu maior desafio aconteceu no final da década de 1980, numa expedição localizada na Ponta da Pirabura, em Ilhabela. Nicola conhecia o grego Jeannis Platon, proprietário de uma embarcação que praticava turismo, mergulho e resgates marítimos. Na ocasião, ele pegou uma concessão para fazer o resgate de peças do Príncipe das Astúrias, afundado em 1916, numa noite tempestuosa de Carnaval. Considerado o maior acidente naval da história do país, o Titanic brasileiro deixou diversas riquezas submersas, entre elas duas estátuas que compunham o monumento em homenagem ao centenário da imigração espanhola na Argentina. O navio partiu de Barcelona e, antes de alcançar o Porto de Santos, sofreu um acidente em Ilhabela, levando à morte quase 500 passageiros, oficialmente. Nicola fez parte da equipe que localizou uma das estátuas no porão do navio. Foi em São Sebastião que ele conheceu sua atual esposa, Vânia Cristina, e com ela ganhou os filhos Marina e João Pedro. No alto dos seus 74 anos, Nicola ainda se dedica ao mergulho profissional e faz planos para o futuro. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal.