Orelhinha no pódio de Itamambuca, em 1984 (Divulgação) Maurício carrega o passado europeu em suas veias, traço marcante na formação do povo brasileiro. Neto de austro-alemães e de portugueses, Maurício de Oliveira Kuhne nasceu no dia 14 de novembro de 1960, na Santa Casa de Santos, mas foi criado na cidade vizinha de São Vicente, a primeira vila do Brasil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O apelido surgiu na cola do seu irmão mais velho, Vitor Orelhão. Magrelo e pequeno, o mais novo acabaria conhecido no cenário do surfe como Maurício Orelhinha. O surfe não surgiu por acaso na vida dos irmãos Kuhne. O pai, Carlos Kuhne Junior, foi um grande incentivador dos esportes aquáticos. A bordo da lancha da família, os Kuhne praticavam mergulho, caça submarina e esqui aquático. Quando não estavam navegando, os irmãos aproveitavam a Praia do Itararé para curtir as ondas sobre a pranchinha de isopor da Planonda. Uma personalidade marcante nessa época foi Benjamin. O vicentino nato surfava de pé na sua pranchinha Planonda. Hoje é possível vê-lo remando em pé sobre sua barquinha no canto da Ilha Porchat enquanto puxa a sua rede de pesca. Aos 11 anos Orelhinha ganhou sua primeira prancha, uma Nel Surfboards, fabricada pelo saudoso Nelson Exel. Excelente artesão de pranchas, Exel também servia de inspiração como surfista. Vicente Ferraro, seu amigo e companheiro de jornada, se diferenciava pelo surfe hardcore, com botton turns radicais e estilo diferenciado. São Vicente, celeiro de grandes surfistas, revelou Longarina, Mirão, Italiano, Salvador, Zé Monstro, Pézinho e Eduardo Faggiano, o Cocó. Mais tarde, novos nomes apareceram, entre eles Carlos Lorenz, Jaime Ventania, Wallaceme, Sapo, Dakinha, Janjão, Aloysio, Juquinha, Alê, Bilu, Pulga, Filete e os irmãos Valino e Argento. Esses últimos montaram a forte equipe da Twin e foram essenciais para a formação de Orelhinha como atleta de competição. Todos eles serviram de inspiração na sua trajetória, sem contar seu irmão Vitor Orelhão, que além de referência, foi seu maior incentivador. Maurício Orelhinha cursou o primário no Grupão em São Vicente, o ginásio no tradicional Colégio Santista e concluiu o Ensino Médio no Santa Cecília. Com o surfe correndo na veia, Orelhinha queria mesmo estar dentro d’água. Ele bem que tentou a Faculdade de Publicidade e Propaganda na UniSantos, mas parou no segundo ano para seguir o sonho e a vocação. Orelhinha e sua turma surfaram na Porta do Sol, pico de ondas exótico entre a Ilha Porchat e a Praia das Vacas. Além disso ele explorou todo o Litoral Norte, da Praia Branca até Ubatuba por toda Rio-Santos, passando por Trindade e Praia da Fazenda. O pai acompanhava a turma nos inesquecíveis acampamentos pela magnífica costa, proporcionando aos filhos e seus amigos condições clássicas de surfe. Em 1976, Orelhinha recebeu de presente do avô materno, Ubirajara Helcias de Oliveira, uma viagem com destino ao Havaí, passando alguns dias por Los Angeles, São Francisco e Las Vegas. Uma viagem dos sonhos para um moleque de apenas 16 anos que experimentou o North Shore e Waikiki, ao lado do irmão Vitor e do amigo Janjão. Nessa viagem, eles acabaram conhecendo o fotógrafo Bruno Alves, que mais tarde se tornaria um dos fundadores da Revista Fluir. Ele acompanhou o Bustin' Down The Door, como ficou conhecido o movimento das lendas do surfe australiano, sul-africano e californiano que chegaram para surfar o North Shore, iniciando uma revolução no surfe de ondas grandes e tubulares. Assistiu Pipeline de gala com todos os melhores do Havaí: Gerry Lopez, Rory Russell, Shaun Thomson, Jeff Crawford, Wayne Bartholomew e muitos outros. A partir daí, Orelhinha entendeu o que era surfe de verdade. Em 1977, ocorreu um campeonato marcante para Orelhinha no recém-construído Emissário Submarino de Santos: o Quebra-mar Inverno 77’. Surfistas de outros estados participaram do torneio, idealizado pelo Zanetti e o Carioca, em um fim de semana com altas ondas. Almir Salazar sagrou-se campeão do torneio, Cisco alcançou a segunda colocação, Orelhinha em terceiro e Jorge Limoeiro em quarto. A presença de Orelhinha em campeonatos vicentinos foi sucedida pelas participações nos primeiros campeonatos de nível estadual e brasileiro. Sua grande marca foi levantar o título nacional de surfe profissional, em Itamambuca, no Festival Nacional de Ubatuba, em 1984. Em dezembro de 1984, uma viagem inesquecível teve como destino a inexplorada Ilha de Fernando de Noronha. Orelhinha e o seu patrocinador, o shaper e surfista carioca Daniel Friedman, embarcaram para a ilha, ao lado de duas modelos da grife de biquínis Blue Man, para um trabalho idealizado pelo conceituado fotógrafo Carlos Lorch. Foram 10 dias surfando nos picos ainda desconhecidos, como a Cacimba do Padre, Praia do Boldró, Praia da Conceição, além de mergulhos nos paraísos escondidos da ilha isolada, ainda fechada para o turismo. A matéria foi publicada na revista Fluir. Em 1989, Orelhinha saiu para mais uma viagem ao North Shore havaiano e decidiu se estabelecer nos Estados Unidos, aonde reside até hoje. Divorciado e pai de dois filhos, Allan e Aydan Kuhne, Maurício Orelhinha vive em Waialua, uma pequena cidade do lado norte da Ilha de Oahu, e se mantém 100% ativo no surfe. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal