[[legacy_image_259526]] Nascido em 1953, em São Paulo, na Maternidade São Paulo, e morando a uma quadra da Avenida Paulista, Francisco Giannattasio Neto, o Kiko, é um paulistano da gema. Muito além das coincidências, foi do avô que ele sofreu suas maiores influências, a começar pelo nome, Francisco. Dono de uma loja referência nacional do ramo odontológico, a Bouticão Universal, o comerciante, filho de italianos, gostava de pescar em alto-mar. Ele mantinha uma grande traineira aportada no rio de Itanhaém. Com ela, os dois filhos e os genros varavam a barra para pescar nas ilhas da Queimada Grande e Queimadinha, no início dos anos 1960. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! h Assim, Kiko dividia a rotina semanal na Capital com os fins de semana e férias na cidade de Itanhaém, à beira do grande rio. Criativo, aos 12 anos, Kiko passou a pintar algumas camisetas com desenhos dos personagens da revista MAD, sucesso no movimento underground dos quadrinhos americanos, da contracultura, e da geração Flower Power. Foi na Mad que ele viu as primeiras ilustrações de surfe, ao mesmo tempo que os primos mais velhos apareceram com uma tábua havaiana oca de madeira e os filmes de Elvis Presley exibiam cenas de surfe no paraíso havaiano. Fruto da formação humanista e crítica do alternativo Ginásio Vocacional do Colégio Oswaldo Aranha, projeto educacional da genial Maria Nilde Mascellani, Kiko recebeu os estímulos artísticos para produzir sua primeira prancha, inspirada na tábua havaiana. Apesar do fracasso do experimento, Kiko não desistiu. Logo depois, o primo Silvio Foz voltava dos Estados Unidos com uma longboard de poliuretano; a Glaspac despontava no mercado com suas pranchas de manta de vidro, enquanto os cinemas eram invadidos pelo filme Endless Summer. Foi um arrebatamento na vida de Kiko. Ele visitou a Glaspac e aprendeu o processo de produção com os operários da fábrica. Kiko vendeu a ideia para o primo Pedro Henrique Gallucci, o Kikinho, e assim recebeu sua primeira encomenda. Pedro comprou o material na Reforplas e os blanks da Glaspac. Kiko descascou e laminou os blanks, aplicou o tecido e resina produzindo duas novas pranchas, uma pra cada, inaugurando com sucesso o surfe na Prainha dos Pescadores, em Itanhaém, ao lado de Edu e João Helou, Pinguim, Renê e Nicola. O universo do surfe de Kiko começou a se expandir quando ele ingressou no Ensino Médio do Colégio Santa Cruz. Lá ele conheceu Zé Maria Withaker e descobriu Guarujá. O ano do vestibular chegou e Kiko ingressou na sonhada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. O contato com as melhores surfboards ampliou a visão do estudante acadêmico. O primo apresentou uma linda prancha Surf Champion, primorosamente laminada por Christian Frutig, o Chane. Ao mesmo tempo, o colega de faculdade, Fabinho Madueño, ganhou uma São Conrado Surfboards. Inspirado nas peças de alta qualidade, Kiko e o irmão Pinguim shapearam e laminaram uma prancha e deram um toque especial: uma quilha transparente. Foi com essa prancha, na companhia de Fabinho, que Kiko colocou seu Simca Chambord na estrada com destino ao Rio de Janeiro. Depois de um dia de surfe no Arpoador e no Píer de Ipanema, eles toparam com Ricardo Bravo, hoje jornalista. O surfista ensinou um truque de laminação para Kiko: a mistura da parafina na resina. Nessa viagem de descobertas, os dois ainda visitaram o Coronel Parreiras da São Conrado Surfboards e conheceram o novo sucesso da época, os blocos de espuma Clark Foam. A viagem foi o estímulo para a montagem de sua primeira oficina, no Bairro Cidade Monções. Ele recebeu uma revista do colega da FAU, o fotógrafo Magrão. A revista trazia um projeto de oficina com iluminação profissional. Nascia a Kiko Surfboards, em 1971. A partir da sua profissionalização como shaper, Kiko montou sua equipe e patrocinou campeonatos, como os primeiros nacionais no Festival de Surf de Ubatuba, com Renê Hendel, Christian e John Wolthers. No Festival de 1973, ele conheceu Tito Rosemberg e seu estilo de vida, uma representação do imaginário da contracultura da época. Kiko foi convidado para passar uma semana na casa de Tito na Praia do Recreio. O surfista carioca carregava a experiência da sua temporada na Califórnia, quando trabalhou na Gordon & Smith. Ainda em 1973, Kiko passou três meses na Califórnia, aprimorando seus conhecimentos na oficina do mestre Bruce Jones. De lá seguiu para o Havaí, onde acompanhou o trabalho de Bill Barnfield em suas famosas gunzeiras para surfar Pipeline. Vivendo na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, Kiko parou com a fabricação de pranchas em 1980, quando foi aprovado como professor de Arquitetura na UFSC. Ele aprimorou seus conhecimentos em arquitetura computadorizada e paralelamente o surfista enveredou para o caminho das artes, compondo e cantando rock n’roll como o Lord K, sua outra paixão. Hoje, aos 69 anos, apresenta seus trabalhos com domínio avançado em produção audiovisual pelos programas da Adobe, e intectualmente muito ativo, busca soluções arquitetônicas e urbanísticas de interesse social, enquanto aproveita os dias de onda surfando com uma funboard 8'4" ao lado de sua casa na Macumba e Canto do Recreio. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal