Piuí, Almir, Moa e Fábio Kerr entrando na bateria do Certame Internacional de 1966 (Divulgação) Fábio Kerr nasceu em 14 de julho de 1952 em Ipanema, literalmente com os pés na areia. Porém, sua história começa muito antes. O bisavô materno, o fotógrafo José Batista Barreiro Vianna, vindo da cidade portuguesa Viana do Castelo, construiu entre 1898 e 1905 a primeira casa na praia de Ipanema, na entrada do Arpoador. O avô e seus pais, Yllen Kerr, descendente de imigrantes americanos de origem escocesa, e Sylvia Vianna Kerr — que se conheceram na Escola de Belas Artes — mantiveram viva essa ligação com o mar, a arte e a imagem. O pai foi artista, fotógrafo e jornalista; a mãe, artista e dona de casa. Fábio cresceu entre ateliês, pincéis e negativos fotográficos, sempre muito consciente de que seria pintor e desenhista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Criado no quarteirão da praia, na Prudente de Moraes, entre a Montenegro e Joana Angélica, Fábio frequentava o Arpoador desde os 8 anos. Foi ali que sua vida mudou: ao ver Tito Rosemberg deslizando numa prancha de madeirite do alto do Pontão-mor, percebeu que aquilo seria para sempre sua linguagem. Aos 10 anos, ganhou sua primeira prancha, feita de madeira de cedro, na marcenaria do seu Chadinho, na Francisco Otaviano. Fábio caminhava a pé até o mar; depois, quando o pai se mudou para um prédio na entrada do Arpoador, bastava atravessar a rua. O surfe no Rio nascia misturado aos mergulhadores do Clube Marimbás e aos caçadores submarinos do Posto 6. Fábio conviveu com nomes pioneiros, amigos de seu pai — Irencyr Beltrão, o Barriga, e Badué, entre outros Nessa época, surfou pela primeira vez numa prancha de fibra, emprestada por Armando Serra, outro pioneiro, durante um campeonato na Macumba. Em 1966, comprou sua própria prancha de fibra 9’6 de Heliana Oliveira, irmã de Edgar Gordilho, e acompanhou o histórico Certame Internacional de Surf, no Arpoador, com Mark Martinson e Dale Struble, quando o surfe brasileiro começou a enxergar o que era a performance global dessa cultura. A proximidade do pai com o jornalismo e a defesa de que o surfe deixasse a marginalidade ajudaram a formar a Federação Carioca de Surf, em 1965, da qual Yllen Kerr foi o primeiro presidente. O objetivo era simples: transformar respeito em regra, organizar e proteger o esporte que crescia na beira d’água. Fábio estudou no Santo Inácio, obrigatório às “boas famílias”, e depois passou para o Brasileiro de Almeida, em Ipanema, onde os malucos iam estudar. Mas foi no mar que Fábio ampliou fronteiras. Ainda adolescente, ele e os amigos Mario da Costa e Silva e Luís Pastor conseguiram uma passagem de navio da Lloyd para Santos e foram parar no Guarujá, surfando na Praia das Pitangueiras diante de uma inesperada plateia. Ali, conheceu os surfistas Eduardo Piolho, Zé e Chico Paioli, e os irmãos Argento. O pedido veio rápido: ajudar a estruturar o primeiro Campeonato Paulista, em 1967. Fábio buscou regras no Rio, convidou os cariocas para participar da comissão julgadora no campeonato e hospedou-se na Praia da Enseada, na casa de Renata Polisaitis, a primeira mulher a competir no Estado de São Paulo. O surfe paulista ganhou forma — com demonstrações, julgamentos e a efervescência de uma geração. Ao longo da vida, equilibrando artes plásticas, pranchas e liberdade, Fábio criou logomarcas para shapers e lojas, trocou pinturas por viagens e pranchas, e preservou a memória de uma época em que o mar era mais escola do que cenário. Hoje, considerado “o mais novo dos antigos”, segue como sócio 002 do Arpoador Surf Club — testemunha viva dos dias em que o surfe brasileiro descobria a si mesmo. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal