A história de Cauli Rodrigues é, antes de tudo, a história de um surfista que atravessa gerações. Nascido e formado nas ondas do Rio, ele embarcou para a Austrália em 1978 com apoio do Jornal do Brasil, levando no bolso seu backside feroz e a ambição de provar que o surfe brasileiro podia ir além das fronteiras nacionais. Logo ao chegar, ao lado de Pepê, percebeu o impacto de sua presença — estrangeiros observavam, curiosos, surfistas vindo de fora do eixo Califórnia–Havaí–Austrália. Nos anos seguintes, sua passagem pela casa de Jim Banks lhe apresentou a uma nova vanguarda: Mark Occhilupo e Tom Curren ainda despontavam, mas já deixavam evidente que o surfe mundial entrava em outro patamar. Cauli testemunhou essa revolução de perto — uma geração que seria base estética e técnica do surfe moderno. A temporada australiana de 1983 coroou seu potencial. Nas triagens do Straight Talk Tires, em Cronulla Beach, ele venceu todas as baterias até a final. Liderava com folga e estava prestes a se tornar o primeiro brasileiro campeão de um evento daquele porte, quando uma acusação absurda — puxar a cordinha de um adversário — resultou em sua desclassificação. Um episódio duro, porém apenas um entre tantos em que Cauli enfrentou distorções na arbitragem, dentro e fora do Brasil. Ainda assim, seguiu adiante. Foi pioneiro na fundação da ASP e, no Brasil, ajudou a erguer a Organização de Surfistas Profissionais (OSP), entidade histórica criada nos anos 80 no Rio de Janeiro, ao lado de outros nomes essenciais do período. Entre 1977 e 1985, tornou-se um dos surfistas mais competitivos do país, patrocinado por marcas como JB, Rádio Cidade, USTop, Yso Amsler e Cristal Graffiti. E então veio 1987 — um divisor de águas. Naquele ano foi realizado o primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional, já dentro de um cenário mais organizado. Cauli terminou em 11º lugar no ranking, mostrando consistência num momento crucial. Mais velho entre os Top 16, competiu com uma geração que vinha com apetite renovado, enquanto ele equilibrava a rotina de atleta com a faculdade. A transição era evidente — ele já havia visto o surfe mudar outras vezes, mas agora sentia isso na pele. Essa percepção aflora na maneira como Cauli descreve a evolução dos designs dos shapers e suas quilhas, uma história que ele viveu de dentro da sala de shape. Segundo ele, a single fin, as monoquilhas, tinha limite físico: “ela derrapava e você caía”. A biquilha trazia velocidade, mas não garantia a verticalidade da manobra. A triquilha, enfim, “juntou o melhor dos dois mundos em um só”. A adaptação não foi imediata: lançou-se às triquilhas no início dos anos 1980, mas ainda guardava suas monoquilhas australianas. Ele relembra que em 1985 já alternava pranchas de vários shapers — Radical, Big Stick, Cristal Graffiti, Hot Stick — e que surfista bom precisa de relação direta com o shaper, agora designers. Acompanhou a era artesanal e testemunhou a chegada do computador às fábricas. Para ele, entender bordas, medidas e hidrodinâmica fazia parte do surfe. Cauli Rodrigues, aos 69 anos, segue no mar — nas praias do Arpoador, Diabo, Posto 5. Um surfista que atravessou gerações, sistemas, pranchas e arbitragens, e que continua, como sempre, na crista das ondas. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal