Nascido em Recife, em 9 de novembro de 1967, Carlos Alberto Burle Filho cresceu entre duas tradições marcantes: famílias pernambucanas ligadas ao esporte e uma infância profundamente conectada à natureza. Filho de Carlos Alberto Burle, comerciante de antepassados franceses e apaixonado por automobilismo, e Suzana Maria de Moura Burle, que mais tarde se formaria em enfermagem, viveu desde cedo os contrastes de um lar intenso, marcado por separações e recomeços. Foi nesse ambiente instável, mas cheio de liberdade, que começou a moldar a personalidade resiliente que o definiria no surfe. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Sua primeira conexão com o mar veio cedo. Segundo a mãe, Carlos não dormia, até que o médico da família recomendou um banho de mar. Bastou a primeira ida à praia para que ele dormisse profundamente — o mar o acalmava. Criado numa granja no Cabo, entre Recife e Ipojuca, cercado por animais e perto de praias como Porto de Galinhas, Cupe e Maracaípe, Carlos Burle desenvolveu cedo uma relação quase instintiva com a água. Adorava mergulhar, atravessar longos trechos submerso e pregar sustos nos amigos. Já em Piedade, depois da separação dos pais, passou a viver à beira-mar, mergulhando, pescando nos arrecifes e explorando o oceano como extensão de casa. O surfe surgiu por volta dos 12, 13 anos, inicialmente numa Planondas, até que uma Lightning Bolt monoquilha emprestada marcou sua primeira onda em pé. Pouco depois, adquiriu uma prancha usada de Hélio Coutinho e, em seguida, uma Magia Surfboards shapeada por Ricardo Marroquim, o Marroca. A base técnica e emocional veio da convivência com a turma da Escola Parque, em Recife, e dos picos de Boa Viagem. Ali, nomes como Eraldo Gueiros, Cláudio Marroquim e Milton Pimpa Lynch ajudaram a lapidar seu talento. Influenciado por filmes como Free Ride e pelas primeiras revistas especializadas — com destaque para Picuruta Salazar na capa da Fluir —, Burle absorveu uma cultura de surfe ainda incipiente no Nordeste, marcada pela escassez de recursos e forte preconceito social. As surftrips para o litoral sul de Pernambuco e para o Rio Grande do Norte, explorando regiões como São José da Coroa Grande e Pipa, consolidaram seu espírito aventureiro. Entre atoleiros, acampamentos e praias vazias, formou-se um surfista com senso de descoberta e resistência. Seu primeiro campeonato foi o Acaiaca Festival, em Boa Viagem, onde ficou em sexto lugar e foi eleito revelação com apenas seis meses de prática. A partir daí, acumulou títulos no circuito amador, até migrar para o profissional. Em 1986, fez sua primeira viagem ao Havaí, experiência transformadora que definiu seu rumo. Foi também em 1986 que se mudou para o Rio de Janeiro, a convite de Pepê Cezar, buscando evolução técnica e inserção no cenário nacional. No ano seguinte, integrou o histórico Circuito Brasileiro de Surf de 1987, marco da profissionalização do surfe no país, quando terminou na quinta colocação geral. Burle destacou-se pelo vice-campeonato na terceira etapa do Circuito, o Sundek Classic, em Itamambuca. Os bons resultados lhe renderam o patrocínio da Plâncton, garantindo sua independência como atleta profissional. A relação com ondas gigantes nasceu de forma natural. A partir das temporadas no Havaí, especialmente em Oahu, Burle desenvolveu afinidade com condições extremas. Sem um caminho definido na época, construiu sua reputação no free surf e em viagens como Desert Point e Ilha de Páscoa, no início dos anos 1990, com Jojó de Olivença e Dick Meseroll para a Surfer Magazine. O reconhecimento global viria em 1998, no Mundial da International Surfing Association, na Baía de Todos os Santos, no México, onde liderou o Brasil a um título histórico, ao lado de Rodrigo Resende e do técnico e caddie Rosaldo Cavalcanti. A partir dali, consolidou-se como o surfista brasileiro pioneiro nas competições em ondas gigantes, estabelecendo recordes (em 2001, Burle surfou Mavericks, na Califórnia, a maior onda já registrada até a época, com 68 pés), além de contribuir diretamente para a formação de novas gerações. Entre desafios dentro e fora d’água, Carlos Burle, casado com Lígia e pai de Iasmim e Reno Kai, construiu uma trajetória marcada pela superação — fiel à essência das Histórias do Surfe: a de um homem que encontrou no mar não apenas um caminho, mas seu próprio destino. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal