A história de Fred D’Orey começa antes mesmo de ele nascer, no rastro de um drama que atravessou o Atlântico. Seu pai, Fritz D’Orey, piloto brasileiro de Fórmula 1, sofreu um acidente devastador nas 24 Horas de Le Mans, ficando 40 dias em coma. O Jornal do Brasil chegou a estampar: “Fritz D’Orey morre em Le Mans”. Contra todas as previsões médicas, ele sobreviveu. E foi numa dessas reviravoltas improváveis do destino que, já recuperando a vida em Paris, conheceu Filippa Naess, filha do embaixador da Suécia. Saíram da festa de mãos dadas, casaram-se e nove meses depois nascia Frederico Guilherme Kumlin D’Orey, 30 de outubro de 1962, em São Paulo. A primeira memória do surfe veio cedo. A família passava temporadas em Guarujá, e na Praia de Pitangueiras o menino pegava os longboards que chegavam até a areia sem cordinha. Remava, equilibrava-se, escapava dos donos só para mais uma onda – e ali sentiu, pela primeira vez, que aquela natureza era sua. Quando tinha 7 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro. Fred estudou em escolas religiosas, como o São Vicente de Paula e o Santo Ignácio, e cresceu numa época de ditadura e preconceito. Muitos surfistas escondiam pranchas dos pais – mas o Arpoador oferecia um mundo próprio, onde aquela criança e sua pranchinha de isopor mantinha os olhos voltados para ídolos como Daniel Friedmann, Petit, André Pitzalis e Renan Pitanguy. Era pouco material, pouca prancha, pouca indústria – mas muita fome de onda. Esse entusiasmo convenceu o pai a comprar sua primeira prancha, uma Pacific Vibrations na Galeria River, ainda no começo dos anos 70. Fred mergulhou no surfe e no conhecimento – sete horas na água, outras na música e na leitura em casa. No Arpoador vivia a base. Na Prainha, o aprofundamento. O sítio que o pai comprou por acaso, ali atrás da Macumba, transformou-se num campo de treinamento. As competições aceleraram. Em 1977, ficou em segundo lugar no campeonato da Magno, no Arpoador – seu primeiro grande resultado. Em 1978, aos 15 anos, passou pela triagem no Waimea 5000 e caiu direto contra Wayne Bartholomew, que terminaria campeão mundial. Perdeu, mas entendeu que podia chegar longe. Em 1981, viveu seu melhor Waimea 5000: venceu Martin Potter, Joey Buran e David Barr, chegou à semifinal e acabou eliminado</CW><CW-27>. Em 1984, ao lado de Rosaldo Cavalcante, criou um jornal independente que misturava surfe, música, comportamento, política e viagens. O Jornal Staff virou referência entre jovens, tribos alternativas, surfistas e músicos. Ele durou até 1987, ano da criação do Circuito Brasileiro de Surf Profissional, que marcaria sua trajetória. Na última etapa do Circuito, no dia 30 de outubro, seu aniversário, Fred encaixou direitas fortes de Itaúna e venceu o Town & Country Pro com autoridade. Foi carregado pelos amigos, selando o melhor resultado de sua carreira profissional. Fechou o ano na sétima colocação do ranking brasileiro. Depois, reinventou-se: jornalista, editor da revista Fluir e empresário na indústria da moda com a criação da marca Totem, conectando Brasil e Indonésia. Hoje, aos 63 anos, Fred D’Orey, pai de Martim e Tiano, segue fiel à essência. Entre pranchas pequenas, longboards e viagens, permanece movido pela mesma energia que o fez remar, pela primeira vez, em direção à areia – e ao destino. O livro Outras Ondas, publicado pela Editora Gaia, em janeiro de 2008, conta a história completa de Fred D’Orey. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal