Em imagem para a história, os primeiros Top 16 do Brasil, Revista Surfer, em 1987 (Carlos Lorch) Há fotografias que congelam um instante qualquer. Outras guardam o momento exato em que uma história muda de rumo. A imagem publicada na edição da Revista Surfer Brasil pertence claramente à segunda categoria. Nela, a elite do surfe brasileiro se reuniu diante das câmeras com suas pranchas coloridas, estampadas por marcas que hoje fazem parte da memória afetiva do esporte. Aquele registro representava o nascimento de uma nova etapa para o surfe no Brasil. O surfe e sua aura da contracultura dos anos 1970 e o início dos 80 também eram, acima de tudo, a formação de uma tribo em seu estilo de vida. Campeonatos existiam, mas eram esporádicos e pouco estruturados. A organização do surfe brasileiro dava seus primeiros passos. Foi nesse cenário que surgiu a Associação Brasileira de Surf Profissional (ABRASP), fundada no dia 12 de novembro de 1986. Nesse dia aconteceu a eleição da diretoria e Ricardo Bocão foi eleito seu primeiro presidente. A entidade organizou o primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional, junto aos empresários do surfwear nacional, criando ranking, etapas e premiações. Pela primeira vez, os surfistas do país podiam vislumbrar uma carreira estruturada dentro do esporte. A fotografia publicada pela Surfer, feita pelo fotógrafo Carlos Lorch, reuniu alguns dos nomes que estavam construindo esse novo caminho. No final daquele ano de 1987, os 16 melhores colocados na temporada posaram para foto histórica. Entre eles, Paulinho Matos, vencedor da primeira etapa, o OP Pro, na Praia da Joaquina, sagrou-se também, ao final, o campeão do Circuito. Na segunda etapa, disputada na Praia de Pitangueiras, em Guarujá, o Lightning Bolt revelou o santista vitorioso Fê Corrêa. O Sundek Classic recebeu os surfistas na terceira etapa do Circuito, na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, berço dos Primeiros Festivais Brasileiros de Surf. Nela, Amaro Matos foi o melhor colocado. O Fico Surf Festival consagrou o Nordeste ao levar a quarta etapa para lá. O campeonato ocorreu na Praia de Stella Maris, ao norte de Salvador e abriu as portas para uma constelação de surfistas nordestinos, mas foi o carioca Pedro Müller que levantou a taça. A última etapa do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional não poderia deixar de ser em Saquarema, o Maracanã do surfe nacional. O Town & Country Pro foi contemplado em Itaúna, com Fred D'Orey seu campeão. Na foto, os 16 melhores surfistas do ano - 1º Paulinho Matos (SP), 2º Pedro Müller (RJ), 3º Neno do Tombo (SP), 4º Nelson Ferreira (ES), 5º Carlos Burle (PE), 6º Amaro Matos (SP), 7º Frederico D'Orey (RJ), 8º Rodolfo Lima (RJ), 9º Picuruta Salazar (SP), 10º Eraldo Gueiros (PE), 11º Cauli Rodrigues (RJ), 12º Felipe Dantas (RN), 13º David Husadel (SC), 14º Dadá Figueiredo (RJ), 15º Fernando Corrêa (SP), 16º Sérgio Noronha (RJ) – cada um com seu estilo, sua personalidade e sua contribuição para a construção da identidade do surfista brasileiro profissional. Os shapers e as fábricas de pranchas criaram designs funcionais para todas as ondas do Brasil. As pranchas coloridas, com grafismos ousados, refletiam bem o espírito da época. E as marcas que patrocinavam os atletas ajudavam a transformar o surfe em um fenômeno cultural que ultrapassava a areia das praias. O mais importante, porém, não era apenas o talento individual daqueles surfistas, mas o sentimento de união que começava a se formar. O tempo confirmaria essa intuição. Décadas depois, o Brasil se tornaria uma das maiores potências do surfe mundial. E, ao olhar novamente para aquela fotografia de 1987, é impossível não perceber que ali estava o início de tudo - o momento em que o surfe brasileiro decidiu que podia, finalmente, voar. Boas ondas aos primeiros Top 16º do Brasil. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal