Modernizar um porto não significa apenas incorporar novas tecnologias. Os portos brasileiros estão em constante transformação: avançam na digitalização, exploram as possibilidades da inteligência artificial e investem cada vez mais em inovação, qualificação e capacitação profissional. Mas toda transformação traz também novos desafios — e um deles está na forma como pensamos a segurança das pessoas que fazem o porto acontecer. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A presença feminina é hoje uma realidade crescente no setor. Mulheres estão na gestão, engenharia, fiscalização e administração, mas também no cais, na segurança, manutenção, operação de equipamentos e em atividades embarcadas. Essa presença amplia a diversidade dos nossos portos e traz uma questão necessária: nossos instrumentos de segurança estão olhando para todas as pessoas que efetivamente ocupam esses ambientes? Segurança se constrói, antes de tudo, pela capacidade de antecipar riscos. Estudos de avaliação de riscos e planos de segurança portuária não podem ser tratados apenas como exigências formais. São instrumentos essenciais para identificar ameaças, reconhecer vulnerabilidades e estabelecer medidas capazes de prevenir ocorrências e proteger instalações, operações e, sobretudo, pessoas. Nesse processo, é fundamental considerar as diferentes realidades vivenciadas pelas mulheres. Não se trata de associar presença feminina à fragilidade. Trata-se de fazer gestão de riscos com maior precisão. Uma profissional que trabalha em área administrativa está submetida a condições distintas daquela que atua no cais, em turnos noturnos, na fiscalização, manutenção, segurança, operação ou embarcada. Cada ambiente, horário, atividade e forma de deslocamento produz exposições diferentes e precisa ser analisado a partir de suas particularidades. Esse olhar alcança aspectos concretos da infraestrutura e da operação: iluminação, videomonitoramento, controle de acesso, circulação em áreas de menor movimento, deslocamentos durante a madrugada, comunicação, instalações sanitárias e vestiários adequados, além de protocolos eficientes para situações de emergência. Mas há riscos que não aparecem nas cercas, câmeras ou sistemas de controle de acesso. Assédio, intimidação, constrangimento e violência também comprometem a segurança do ambiente profissional. É justamente nesse ponto que segurança portuária, governança e integridade precisam caminhar juntas. Canais seguros de denúncia e acolhimento, procedimentos de apuração e responsabiliza-ção e ações permanentes de prevenção devem integrar uma política institucional capaz não apenas de reagir às ocorrências, mas, principalmente, de evitá-las. Quanto melhor conhecemos quem ocupa determinada instalação, como circula, em quais horários trabalha e a quais situações pode estar exposto, maior será nossa capacidade de identificar vulnerabilidades e agir preventivamente. A presença feminina nos portos não é circunstancial. Mulheres comandam equipes, operam equipamentos, trabalham embarcadas, fiscalizam operações e participam das decisões estratégicas. É uma realidade que tende a avançar e que precisa estar refletida nos estudos de avaliação de riscos e nos planos de segurança portuária, com procedimentos efetivamente implementados e permanentemente atualizados. Um porto moderno não é apenas aquele que movimenta mais carga, melhora sua eficiência ou incorpora novas tecnologias. Modernidade também se mede pela capacidade de oferecer um ambiente seguro para todas as pessoas que fazem a operação acontecer. A melhor segurança continuará sendo aquela capaz de enxergar a vulnerabilidade antes que ela se transforme em ocorrência. A presença feminina nos portos já é uma realidade. O próximo avanço é garantir que a segurança portuária seja capaz de enxergar essa realidade em toda a sua dimensão.