Os eventos climáticos extremos deixaram de ser riscos futuros para se tornarem realidade cotidiana, impondo perdas crescentes à produção, à infraestrutura, às cadeias logísticas e às finanças públicas. No Brasil, a situação é especialmente preocupante. A combinação de elevada diversidade climática, desigualdades regionais, forte dependência do agronegócio, expansão urbana desordenada e déficits históricos de infraestrutura hídrica torna o país particularmente vulnerável a secas, enchentes, ondas de calor e tempestades. Os custos da inação são cada vez mais altos. O Global Climate Action Barometer 2025, da EY, estima que não adotar medidas de mitigação e adaptação custa, em média, 15% da receita anual das empresas, quase o dobro dos 8% que tais companhias planejam investir para enfrentar esses impactos. A lógica econômica é clara: investir hoje em resiliência custa menos do que reconstruir amanhã. O retorno já é mensurável: segundo o relatório Disclosure Dividend 2026, do CDP, empresas que reduziram emissões acumularam economias de US\$ 80 a 94 bilhões desde 2024, e cada US\$ 1 investido em resiliência a riscos físicos gera, em média, US\$ 10 de retorno. Banco Mundial e OCDE reforçam que a adaptação não substitui a mitigação, mas é complemento indispensável, com prioridade para a infraestrutura resiliente voltada à segurança hídrica. A água tornou-se o principal vetor de risco climático: secas comprometem abastecimento, agricultura e geração de energia; chuvas intensas provocam enchentes e rompimentos de infraestrutura. Ampliar reservatórios, reduzir perdas na distribuição, expandir o reúso e fortalecer a drenagem urbana são, hoje, investimentos em produtividade e competitividade. É nesse contexto que os mecanismos de mercado assumem papel decisivo, pois a magnitude dos investimentos supera a capacidade fiscal dos governos. Títulos verdes, sociais e sustentáveis e as debêntures incentivadas de infraestrutura permitem captar recursos privados a custos competitivos para obras de resiliência hídrica. Estruturas de blended finance, que combinam capital público, multilateral e privado, reduzem riscos e viabilizam projetos que o mercado sozinho não financiaria. Outros instrumentos complementam esse arcabouço. Seguros paramétricos e títulos de catástrofe (cat bonds) transferem riscos climáticos e garantem liquidez imediata após eventos extremos. O mercado regulado de carbono, criado pela Lei 15.042/2024, e o mercado voluntário podem gerar receitas adicionais para projetos com benefícios de adaptação, enquanto o pagamento por serviços ambientais remunera a conservação de bacias e nascentes. Concessões e parcerias público-privadas em saneamento, irrigação e drenagem completam esse arcabouço, atraindo capital e eficiência operacional para a infraestrutura resiliente. Os extremos climáticos já impõem custos reais à sociedade brasileira. A escolha não está entre investir ou não, mas entre financiar hoje soluções de adaptação ou arcar amanhã com perdas muito maiores. Construir mecanismos de mercado capazes de acelerar investimentos em infraestrutura resiliente talvez seja uma das políticas públicas mais importantes para garantir crescimento sustentável, segurança hídrica e competitividade ao país. Economista, professor e coordenador do Centro de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV.