Os eventos climáticos extremos vêm se tornando cada vez mais presentes nos noticiários brasileiros (Divulgação/ Comunicação Portos-RS) Os eventos climáticos extremos vêm se tornando cada vez mais presentes nos noticiários brasileiros. Do final de 2023 até agora, o Brasil já teve que lidar com a forte seca na Amazônia, três ondas de calor e inundações que submergiram grande parte do Rio Grande do Sul. A implicação dessas catástrofes é, primeiramente, social, com diversas famílias desalojadas, impactos na saúde pública e nos meios de subsistência de milhões de brasileiros. Mas, em segundo plano, há também enormes impactos sobre a logística dessas regiões, visto que tais eventos viabilizam ou encarecem o transporte de mercadorias, refletindo diretamente na inflação das cidades e na competitividade do país. Nesse sentido, os portos são, talvez, uma das infraestruturas mais sensíveis aos eventos. Afinal, se há seca, o calado do rio diminui; se há muita chuva ou ciclones, as águas não permitem a operação de transbordo de forma segura. Ano passado, pesquisadores holandeses e britânicos publicaram estudo estimando uma perda média anual de US\$ 81 bilhões em transações comerciais pelo mundo e US\$ 122 bilhões em perdas econômicas pela paralização das operações portuárias devido a eventos climáticos extremos (Verschuur et al., 2023). Outro estudo publicado em 2020 estimou que o crescimento das inundações em áreas costeiras, derivadas da elevação dos níveis dos oceanos, impactará de 12 a 20% do PIB global até 2100 (Kirezci et al., 2020). O Brasil possui diversos exemplos de como os eventos climáticos extremos impactam os portos e a logística de cargas no país. Em exemplo recente e devido ao processo de estiagem na Amazônia, o Porto Chibatão e o Super Terminais, instalações localizadas em Manaus (AM), à beira do Rio Amazonas, investiram na montagem emergencial de dois píeres flutuantes que funcionarão como balsas para o carregamento de contêineres em navios que não conseguem atracar nesses portos nesta época do ano devido à diminuição do calado do rio. Tais investimentos permitirão que os terminais continuem a operar durante o período de seca, mas sob um ritmo menor, menos eficiente, e que direta ou indiretamente irá aumentar os custos de toda a cadeia logística coligada. Conforme informações da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), durante a forte estiagem de 2023, tais píeres não estavam disponíveis e outras soluções tiveram que ser pensadas. Por exemplo, transportou-se a carga pelo modo rodoviário - muito mais caro do que o transporte fluvial, além de difícil operação na região - ou realizou-se o transbordo para barcaças (embarcações menores e, portanto, com menor calado) no porto de Vila do Conde, próximo a Belém (PA), operação que, além de saturar a capacidade da instalação, também tornava a operação mais demorada. Tais evidências mostram a necessidade de políticas e infraestruturas mitigadoras, que protejam e amenizem os impactos dos eventos climáticos sobre as infraestruturas logísticas e, claro, sobre a população. Além disso, será fundamental desenhar estratégias de prevenção e adaptação à nova realidade climática. "Adaptar" e "mitigar" são palavras que ganharam ainda mais importância em nosso vocabulário, seja em relação aos efeitos dos eventos climáticos extremos na sociedade, seja aos efeitos no setor portuário. *Economista, professor e coordenador do Centro de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV