(Imagem ilustrativa/Magnific) Na mitologia grega, Prometeu roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens e foi condenado por Zeus a um castigo sem fim. A imagem sobreviveu porque descreve bem a história da técnica: da máquina a vapor à eletrificação, do motor a combustão à revolução verde, cada grande salto ampliou a capacidade humana e cobrou um preço ao meio ambiente. A inteligência artificial não é exceção. Ela promete acelerar metas de sustentabilidade ao monitorar emissões, otimizar o uso de água e energia e rastrear cadeias produtivas. Mas há um paradoxo que não pode ser ignorado: a mesma tecnologia que ajuda a enfrentar a crise climática exige data centers cada vez maiores, intensivos em eletricidade, água e infraestrutura. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Esse contraste importa especialmente para o Brasil. Em episódio recente do podcast Nem Negacionismo, Nem Apocalipse, Marco van der Ree, especialista em bioeconomia e soluções baseadas na natureza, lembrou que o País perdeu quase 700 mil quilômetros quadrados de Floresta Amazônica entre 1995 e 2025, área maior que todo o território de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, destacou o potencial da sociobioeconomia para transformar produtos da floresta em renda e conectar cooperativas brasileiras aos mercados internacionais. A IA pode dar escala a essa agenda: algoritmos acompanham o desmatamento, estimam estoques de carbono e verificam a origem de produtos, reduzindo custos de informação. Nos pilares social e de governança, esses mesmos algoritmos podem ampliar o acesso ao conhecimento, apoiar pequenos produtores e melhorar a transparência das decisões. O ganho econômico está em produzir mais informação, em menos tempo e a menor custo. Tecnologia, porém, não elimina a escassez nem os custos que uma atividade transfere para os outros. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo elétrico mundial dos data centers poderá mais que dobrar até 2030, alcançando cerca de 945 TWh, mais do que o Japão consome hoje em um ano, pouco menos de 3% da demanda global. Esse consumo deve crescer aproximadamente 15% ao ano, ritmo mais de quatro vezes superior ao dos demais setores. A concentração geográfica dos empreendimentos também cria gargalos: limitações das redes podem atrasar cerca de 20% da capacidade planejada até o fim da década. Portanto, os custos da IA precisam entrar na equação econômica: energia, água, uso do solo, expansão da transmissão e emissões. O Brasil tem vantagem competitiva por sua matriz elétrica predominantemente renovável, mas ela não é garantia automática de sustentabilidade. Sem planejamento, data centers podem disputar recursos com outras atividades, pressionar sistemas locais e induzir investimentos ineficientes. A Agenda ESG 2026 do Grupo Tribuna mostrou como essa discussão já chegou à prática. Foram apresentados usos da IA no saneamento, no mapeamento de riscos climáticos, na educação e na prevenção a fraudes. As experiências relatadas revelaram uma condição comum: a tecnologia só produz bons resultados quando há dados confiáveis, equipes capacitadas e validação humana. O evento deslocou o debate da promessa para a execução. É nesse terreno que a regulação deve atuar. O objetivo não é frear a inovação, mas criar incentivos para que seus ganhos privados não gerem custos coletivos desproporcionais. Padrões de eficiência energética e hídrica, transparência sobre consumo e emissões, critérios para conexão à rede e tarifas que diferenciem o custo de instalar em cada região podem direcionar investimentos para regiões com infraestrutura e energia disponíveis. Também é indispensável definir responsabilidades sobre dados, vieses e decisões automatizadas. A pergunta correta, portanto, não é se devemos usar inteligência artificial no ESG. É como utilizá-la para preservar novas áreas de floresta, viabilizar a bioeconomia e ampliar a inclusão sem criar outra fonte de pressão ambiental. A resposta não virá de um chatbot. Dependerá das escolhas econômicas, regulatórias e éticas que fizermos agora. Prometeu não pôde negociar sua punição com Zeus. Nós ainda podemos decidir qual conta vamos pagar pelo fogo que acendemos. Gesner Oliveira. Economista, professor e coordenador do Centro de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV.