A Amazônia, que concentra cerca de 20% da água doce do planeta, segundo a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), passa a enfrentar um desafio irônico: a escassez hídrica em uma região historicamente marcada pela abundância. Durante o 3° Fórum ESG do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) e da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), foi apresentado o estudo Desafio da Segurança Hídrica na Região de Manaus e Políticas de Sustentabilidade, da GO Associados em parceria com o Instituto Reúso de Água (IRdA) e apoio do Instituto Trata Brasil. Para aprofundamento do tema, recomenda-se o episódio 230 do podcast Nem Negacionismo, Nem Apocalipse, com o presidente da Águas de Manaus, Pedro Augusto Freitas, disponível nas principais plataformas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Manaus já vivencia a intensificação de eventos extremos, com secas mais severas e frequentes, enquanto a demanda por água segue em trajetória ascendente. A retirada hídrica gira em 21,2 m³/s, com predominância da termoeletricidade (67%), seguida pelo consumo humano e industrial. As projeções para 2040 apontam aumento da demanda total e, sobretudo, crescimento expressivo do consumo industrial, ampliando a pressão sobre os sistemas hídricos e colocando a necessidade de uma adequada gestão de risco hídrico para o Polo Industrial de Manaus (PIM). O uso excessivo de águas subterrâneas constitui motivo de grande preocupação para a sustentabilidade do Polo. Estima-se a existência de até 40 mil poços irregulares, caracterizando verdadeiro uso predatório da água subterrânea e ilustrando aquilo que na literatura foi cunhado como “tragédia dos comuns”. A agenda ESG deixa de ter caráter meramente reputacional e assume papel estratégico na gestão de riscos e na sustentabilidade econômica de longo prazo. No PIM, que reúne cerca de 600 empresas e movimenta mais de R\$ 200 bilhões anuais, a segurança hídrica deveria ser uma prioridade nas políticas de sustentabilidade das empresas do Polo. A resposta ao desafio exige abordagem integrada. No eixo ambiental, é necessário diversificar a matriz hídrica, reduzindo a dependência de aquíferos e diversificando fontes, especialmente a adesão à rede pública. Por sua vez, o ingresso das indústrias na rede pública de abastecimento pode gerar ganhos de escala e eficiência, contribuindo para a modicidade tarifária. Uma adesão de 10% das empresas do PIM permite beneficiar 193.908 clientes da categoria residencial para a tarifa social, ou 53.506 para a Tarifa 10. Na governança, o fortalecimento da regulação, fiscalização e transparência é condição indispensável para evitar a exploração predatória dos recursos. A heterogeneidade na maturidade ESG das empresas ainda representa desafio relevante, diante da ausência de padronização e de dados consolidados. Nesse contexto, iniciativas como o programa ZFM+ESG, da Suframa, assumem caráter estruturante ao integrar práticas ambientais, responsabilidade social e governança corporativa. A segurança hídrica na Amazônia transcende a dimensão ambiental. Trata-se de um tema de desenvolvimento econômico, justiça social e resiliência institucional que interessa não apenas ao PIM, mas a todo Brasil e ao planeta.