É difícil aceitar que em pleno 2026, com satélites, inteligência artificial e sensores capazes de antecipar enchentes, o Brasil ainda perca 39,53% da água tratada e trate apenas 51,8% do esgoto que produz, segundo os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), referentes a 2024. A contradição resume o problema: o país digitaliza mais rápido do que universaliza. Não faltam ferramentas; falta prioridade. Tecnologia só transforma a realidade quando vem acompanhada de investimento, decisão política e participação social. Medidores inteligentes e algoritmos localizam vazamentos, identificam fraudes e estimam a demanda de água. A Sabesp conduz o maior programa de hidrômetros inteligentes do mundo, com previsão de alcançar mais de 12 milhões de habitantes de São Paulo até 2029. Nas estações de esgoto, sensores ajustam a aeração e a dosagem química e antecipam obstruções. Na limpeza urbana, câmeras identificam descartes irregulares e otimizam rotas. Na drenagem, radares, modelos preditivos e gêmeos digitais permitem simular cenários e antecipar riscos. Blockchain e tokenização podem ampliar a rastreabilidade da reciclagem e representar resultados verificáveis, como água reutilizada ou emissões evitadas, atraindo financiamento verde. Mas nenhum token vale mais do que a qualidade do dado que o sustenta. Essa transformação esteve no centro do Webinar SaniHUB, realizado em agosto, sobre digitalização, inteligência artificial e participação social no saneamento. Entre as ferramentas apresentadas estão o SaniHUB RedBasica, plug-in livre integrado ao Sistema de Informação Geográfica QGIS para traçar, calcular e dimensionar redes de esgoto; o SaniHUB Ramais, que conecta o levantamento georreferenciado ao cálculo hidráulico, ao orçamento e à geração de plantas e ordens de serviço; e soluções sociocomportamentais para identificar por que uma família, mesmo tendo rede disponível, não efetiva sua ligação. A aplicação da IA apresentou resultados especialmente relevantes. Algoritmos evolutivos comparam numerosos traçados e encontram alternativas tecnicamente viáveis com menor custo. No caso apresentado para Montevidéu, a otimização alcançou redução de custos de até 45% em relação a métodos heurísticos tradicionais. A inteligência artificial não substitui o engenheiro: amplia sua capacidade de escolher, incorporar restrições e alocar melhor recursos escassos. É inovação que produz eficiência econômica mensurável. O webinar também reforçou uma conclusão decisiva: saneamento não é apenas tubulação. Georreferenciamento, aplicativos móveis offline, imagens de satélite, modelos digitais de elevação, painéis e inteligência artificial podem reduzir prazos, retrabalho e custos. Mas a rede pode permanecer vazia se renda, informação, confiança e comportamento forem ignorados. O trabalho social precisa ser medido com o mesmo rigor aplicado à engenharia, e os contratos devem reconhecer a conexão efetiva como resultado. O gargalo, portanto, não é tecnológico. Dado ruim apenas automatiza o erro. Interoperabilidade, segurança cibernética, auditoria de algoritmos e qualificação das equipes precisam avançar com os sensores. Concessões e privatizações podem produzir um salto de governança e investimento, necessário para universalizar os serviços e incorporar inovação. Sem uma política capaz de atrair capital também para municípios menores, porém, o saneamento 4.0 corre o risco de virar privilégio de quem já possui rede. O Marco Legal do Saneamento estabeleceu 2033 para a universalização. Faltam sete anos. Enquanto a nuvem avançar mais rápido do que a rede, o atraso não será um problema de tecnologia, mas de escolha. A revolução digital só será real quando tecnologia, engenharia e participação social funcionarem como um único sistema a serviço de quem abre a torneira.