(Arquivo/AT) A crise climática já venceu a etapa da advertência e entrou, de forma brutal, na rotina das cidades brasileiras. O que antes era tratado como um risco climático, hoje é tratado como uma certeza: fala-se em adaptação climática. O conceito abstrato se torna bastante prático com tardes sufocantes, alagamentos recorrentes em contraste com estiagens assustadoras e uma sensação difusa de que as cidades perderam a antiga capacidade de absorver o imprevisível. É nesse ponto que o debate público precisa amadurecer. Durante muito tempo, a conversa sobre mudança do clima foi sequestrada por dois extremos igualmente improdutivos: de um lado, o negacionismo displicente, que tratava a ciência como exagero; de outro, um discurso apocalíptico. A crise existe, seus efeitos são mensuráveis e o desafio agora é governar sob novas condições ambientais. Nesse contexto, o orçamento climático adquire relevância estratégica. Quando a administração passa a associar gastos, metas e planejamento ao impacto ambiental, reconhece que a crise do clima precisa sair da retórica e entrar na contabilidade do poder. Uma gestão pode fazer dezenas de declarações eloquentes em defesa da sustentabilidade, mas será o desenho do gasto público que mostrará se a questão ambiental é eixo de governo ou apenas ornamento institucional. Um exemplo dessa interação é a eletrificação da frota de ônibus. Trata-se de uma medida importante, não apenas por reduzir emissões, mas por reposicionar a mobilidade urbana no centro da agenda climática. Contudo, seria um erro vendê-la como solução mágica. A transição ecológica urbana não cabe em um único programa, mas depende de um conjunto articulado de políticas de requalificação do espaço público, como ampliação da arborização, recuperação de áreas degradadas e incentivo à economia circular. Aliás, a economia circular deveria ocupar lugar muito mais central na discussão brasileira. Ainda prevalece entre nós uma lógica primária de extração, consumo e descarte, como se o planeta oferecesse matéria infinita e capacidade ilimitada de absorver lixo, poluição e desperdício. Em um ambiente urbano pressionado, resíduos não são apenas um problema de limpeza, e sim um problema econômico, sanitário e climático. Reutilizar, reaproveitar, reduzir perdas e reorganizar cadeias produtivas deixou de ser pauta de nicho ambientalista para se tornar requisito de inteligência urbana. Cidades mais resilientes serão aquelas capazes de produzir menos desperdício e mais eficiência. Mas talvez o ponto mais perturbador de toda essa discussão seja a constatação de que a crise climática é, também, uma crise ética. Não apenas porque há omissão, mas porque se naturalizou um padrão de decisão que empurra o custo ambiental para os outros: para os mais pobres, para as periferias, para o próximo governante e para as próximas décadas. A enchente castiga primeiro quem mora pior, enquanto o calor sufoca mais quem tem menos árvores, menos ventilação e menos acesso a infraestrutura. É por isso que a resposta à crise não pode ser apenas técnica, mas também política e justa. A população deve exigir gestores dispostos a agir hoje e planejar para além do ciclo eleitoral e empresas capazes de incorporar responsabilidade ambiental como critério de qualidade operacional. A adaptação climática não é luxo de cidade rica, nem agenda acessória de gabinete: é requisito mínimo de governabilidade. Para maior debate e aprofundamento no tema, ouça episódio 224 do podcast Nem Negacionismo, Nem Apocalipse, com o secretário-executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo, José Renato Nalini – disponível em todas as principais plataformas de áudio.