[[legacy_image_293822]] Tem coisa mais gostosa do que organizar uma viagem? Vocês vão dizer que sim, claro, a própria viagem. É verdade: viajar é uma das melhores experiências da vida. Por isso, planejar esse evento tão esperado é um prazer prolongado. Não gosto de excursões justamente porque elas já vêm prontas. Prefiro, demoradamente e curtindo cada momento, escolher a hospedagem, pesquisando o local, a vizinhança e até passeando virtualmente pelas ruas que, em breve, verei in loco. Assim me sinto um pouco moradora do local, nem que seja por poucos dias. Não me adapto a bate e voltas, excursões dentro de ônibus ou coisas do gênero. Não me importo de conhecer poucos locais de cada vez, mas quero conhecê-los de verdade. Falar com as pessoas, sentar em um banco da praça e ver a vida daquela cidade ir e vir. Um dos maiores prazeres que tive foi ficar pouco mais de uma semana em uma minúscula cidade da Toscana. Ali, o que se tinha para fazer era andar pelos campos perfumados pelas flores, vinhedos e manjericão. Todo morador tinha oliveiras e videiras no quintal, por menor espaço que possuísse. E delas, produziam vinhos e azeites que me levaram ao céu. Eu me deliciei com as histórias da Dona Germana, uma senhora de quase 80 anos, mas sacudida como uma menina – deve ser o azeite e o vinho! Ali, seus tataravós já plantavam e colhiam azeitonas, ofício que ela mantém. Explicou que as árvores são podadas baixinhas para ficar na altura das mãos. E há centenas de tipos delas. Uma dá uma azeitona mais ácida, outra mais apimentada. É como gente, cada qual com sua personalidade. No bate-papo, fiquei sabendo que a oliveira mais antiga da Itália tem 1,7 mil anos e ficava ali pertinho, em Trevi. E que azeitonas estavam nos cestos dos reis magos na visita ao menino Jesus. Segundo me contou, há oliveiras com 4 mil anos. Enquanto ela falava, pude sentir a paixão pela terra e pelo ofício que herdou. Ela confabulava rápido demais e então nem tudo compreendi. Mas pelo que decifrei, na juventude, Germana pensou em ter outra vida. Teve um sujeito que passou por lá, muito sedutor (uma redundância quando se fala de italianos). Ela, por sua vez, tinha seus muitos encantos. O tal Casanova lhe contou muitas histórias de suas posses em Roma, onde, apesar de ser relativamente perto, ela só tinha ido uma vez. Já seduzida, largou tudo: estudos, família, oliveiras. Seu pai disse que não voltasse. Mas ela voltou. Parece que o rapaz não era assim tão poderoso, a não ser na sedução. A paixão acabou e a saudade das suas oliveiras não passou. Ela formou família ali mesmo, transmitindo também aos filhos e netos o ofício do azeite e do vinho que lhe correm nas veias. A partir de segunda-feira parto para descobrir novos lugares, novas pessoas. Volto em outubro, com a bagagem repleta de histórias para compartilhar. Até lá.