[[legacy_image_266412]] O número colossal de pessoas que se autodenominam influencer mostra que a gente (ser humano) é mesmo um bando de Maria vai com as outras, como diria minha mãe. Aliás, dona Carmen tinha uma coleção de frases para nos desestimular a seguir o comportamento de manada. “Você não é todo mundo” era uma das preferidas. Nessas horas, quando criança, eu pensava: “Mas o que tem demais ser todo mundo?”. Afinal, é bem mais difícil ser autêntico do que repetir comportamentos. Isso desde que o mundo é mundo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Essa febre de influencer não é nova, só está ampliada sob a lente superpoderosa da internet. Lá atrás, Sócrates, este sim cheio de personalidade, foi acusado de influenciar os jovens com sua dialética. E, apesar, de não ter escrito nenhuma de suas incríveis teorias filosóficas, deixou sua marca na humanidade até hoje. A filosofia de Sócrates envolvia necessariamente o diálogo. Para cada resposta, novas perguntas podem ser feitas. Hoje, vemos tantos donos da razão e de todas as respostas. E pior, sendo, literalmente, seguidos por milhões de pessoas. Os demagogos sempre existiram, desde os tempos de Sócrates, mas hoje a banalização e a rapidez com que tudo se espalha e contagia são assustadoras, ao mesmo tempo que fugazes. Não sou uma pessoa viciada em redes sociais. Nem ligo se esqueço o celular em casa. No fim de semana, sou capaz de levantar da cama e só lembrar que ele existe depois de muitas horas. Mesmo assim, é claro, fui enredada nessa teia que nos prende como uma predadora voraz. Não deixei de ler livros, nem de gostar de uma boa conversa, mas vez ou outra me flagro por horas passando de um post para outro, de assuntos dos mais variados e vindos de diferentes partes do planeta. Inegavelmente, é tentador demais. Ando planejando minha viagem de férias e, por isso, tenho sido inundada de informações sobre destinos espetaculares. Me deparo com uma infinidade de conteúdo produzido por pessoas interessantes, mas também outras que não têm nada a acrescentar. Sim, neste universo há muitos influencers e vou dizer, alguns têm mesmo me influenciado. São o que já foi chamado de formadores de opinião, só que agora misturados com um quê de celebridade. Nesse oceano que é a internet, temos sim conteúdo com profundidade de poça d’água, mas há muito mergulho profundo que podemos dar. Basta que se tenha o próprio lastro. Nós precisamos de bússolas, de guia, de nos medir por certas réguas. Mas buscando outra frase lá do baú da minha mãe: Troque suas folhas, mas não perca suas raízes. Tento me distanciar um pouco da ansiedade permanente que o celular, com aquele mundo de informações ao alcance das mãos, me causa. Uma amiga me contou que está fazendo um jejum de dopamina. É como um detox de coisas que te dão um prazer imediato e que funcionaria para equilibrar suas emoções. Açúcar, chocolate, álcool, sexo e, claro, redes sociais estão na lista do que se deve afastar por um tempo. A prática nasceu lá no Vale do Silício, nos Estados Unidos, paraíso da tecnologia e também de excentricidades. Os praticantes defendem que perdemos muito tempo com coisas improdutivas e isso acontece porque o corpo estaria em busca de doses cada vez mais altas de dopamina, neurotransmissor relacionado ao bem-estar e à recompensa. Como quando recebemos uma notificação no celular, por exemplo e o dedo já coça para abrir, mesmo em dias de folga. Ficar longe então seria como um detox “desse vício”. Junto, recomenda-se contato com a natureza, tranquilidade, fazer exercício, meditação... Toda essa “teoria” deve ter sido difundida por influencers através de meios que eles defendem que nos afastemos. O que é bem confuso. Me parece óbvio que tirar açúcar, meditar, exercitar-se, ter contato com a natureza e se distanciar de gatilhos de ansiedade nos faça bem, só sempre desconfio de qualquer tipo de promessa de resultados rápidos, quase mágicos. Quando se coloca termos científicos sem que nenhum cientista esteja falando, aí meus dois pés ficam atrás, afinal isso é o que mais temos nesse mar cheio de peixe querendo ser tubarão. Vindo ainda com palavras encantadas como jejum, detox, equilíbrio me parece o combo predileto dessa volumosa onda influencer que tenta nos envolver.