[[legacy_image_272059]] O apito inconfundível avisa que ele está passando. Fazia tempo que ele não aparecia na minha rua trazendo consigo aquele aroma inconfundível do amendoim torrado. No seu carrinho estilizado, um trenzinho, com chaminé saindo fumacinha, o vendedor vai tirando as pessoas de dentro de casa, que não resistem ao apelo daquele perfume. O horário em quem ele passa não é dos mais amigáveis. Geralmente, é no fim do seu dia de trabalho, depois da saída das faculdades. Tem noites que já estou de pijama e a preguiça vence a vontade, mas essa semana eu sucumbi às boas memórias da infância despertadas pelo conhecido apito. Dos tempos que a criançada corria para comprar a paçoquinha vendida dentro dos cones de papel, dobrados um a um. E ela ainda é assim, o que deixa tudo melhor. Perfeita para abrir e derrubar toda aquela farofinha cheia de açúcar direto na boca. E direta é também a ligação com uma boa lembrança, um gatilho de afeto. Fecho os olhos e sou transportada para quando tínhamos que convencer minha mãe a deixar que a gente se empanturrasse dessas delícias. Recentemente, fui surpreendida por um ambulante de tapioca perto do Gonzaga. Com aqueles tabuleiros com tampa de vidro, exibindo toda a glória do doce cremoso com muito coco ralado por cima. Na hora de servir, o ambulante ainda derrama, indulgentemente, muito leite condensado. Também tinha quebra-queixo, que eu gosto do perfume de caramelo queimadinho, mas não muito da textura. Porém, sei que muita gente ama. Para atrair a clientela enquanto passava pela rua, o tapioqueiro usava aquela haste de ferro presa em uma madeira que faz clec-clec ao balançar da mão... Não sei o nome, mas na hora me lembrei do vendedor de biju das praias santistas de antigamente. Se hoje o pastel reina nas areias quentes, antes eram os cestos de queijadinha, os biscoitos de polvilho e os bijus crocantes que matavam a fominha dos banhistas. Assim como mudam os biquínis, a comida da praia também tem sua dinâmica. Era época dos biquínis cortininhas, bem baixinhos, e os mais desejados era da marca carioca San Conrado. Em São Vicente, eu me recordo, tinha uma senhora portuguesa famosa que vendia seus bolinhos de bacalhau, anunciados aos berros: “Olha o ‘volinho’ de ‘vacalhau’!” Era muito bom. No Guarujá, na Praia de Pernambuco, a estrela era uma empadinha vendida por um senhor, que as fazia super-recheadas e de massa amanteigada. Ele as levava em uma espécie de gaveta pendurada no pescoço e elas voavam. Para beber, lógico, a limonada do tamborzinho ou o mate com abacaxi. Esse eu tomo até hoje. Houve a febre do sanduíche natural nos anos 1980 que veio junto do biquíni asa delta ou o maiô engana-mamãe. Todo jovem decidiu ganhar um dinheiro extra fazendo os sandubas com patês variados. Saíram das praias e invadiram as empresas e os shoppings. Os de frango com milho e passas ou os de atum com azeitona eram os mais pedidos. Foi uma onda enorme, mas que passou rápido. Na sequência, os hits foram o queijo coalho e o suco de laranja daquele espremedor automatizado. Em Santos, ainda fazem sucesso misturados a outras frutas e legumes como cenoura, que ajuda no bronze. Mais recentemente, o açaí virou sucesso também na areia e, nos últimos verões, circularam carrinhos vendendo chope e espumante saídos geladinhos de gloriosas e disputadas torneirinhas. Mas o ‘clec clec’ do tapioqueiro me deu uma saudade do tempo da queijadinha, do biscoito praiano e do biju, que não podiam faltar em um domingo de sol santista.