[[legacy_image_286315]] Acho que todo mundo em certo ponto da existência (ou em muitos) tem a impressão de que está vendo a vida passar. Como se das janelas da nossa mente e dos nossos olhos assistíssemos a cenas em que gostaríamos de estar, de participar. Me lembro, na adolescência, que via do meu apartamento um grupo de meninas e meninos que pareciam estar sempre animados, cheios de energia, com uma agenda de programas intensa e sempre juntos, como se fossem um ser único. Tinha meus 15 anos e, apesar, de nunca ter sido tímida, já cultivava a tendência de atividades solitárias, como escrever, ler, pensar... Ao mesmo tempo que ‘invejava’ a sintonia daquele grupo e ansiava por algo parecido, não fazia nada para acontecer porque, na mesma medida, temia que fazer isso talvez não fosse tão prazeroso como parecia. Mas, poderia ser, quem sabe... O tempo foi passando e fui me desafiando a sair dessa zona de conforto. Dizer mais sim para os riscos, os anseios, as tentativas, os sonhos. Ficar do lado de dentro da janela, sem interferências, sem mudanças, parece tão sólido, tão seguro, mas também não te traz nada de novo, nenhum vento no rosto, nenhuma aventura e, geralmente, poucos êxitos. Quando a gente dá um passo para o lado de fora dos nossos receios, algo acontece, nem que seja só colecionar histórias para contar. E nem precisa de companhia. Dá para se arriscar só. Viajar sem companhia pode ser inspirador e libertador. Uma experiência muito pessoal e até transformadora. E não falo só desses roteiros místicos — apesar de ser fascinante esse encontro com si mesmo que esse tipo de jornada possibilita. Assisti a um filme pouco comentado, adaptação de um livro, que depois fui até li. Trata-se de uma história real. O longa-metragem se chama Livre e é com a Reese Witherspoon, aquela do Legalmente Loira e que deveria nos contar o segredo para nunca envelhecer (vocês já viram a pele daquela mulher, um case para estudo). Bom, ela interpreta uma mulher que, após a morte da mãe, um divórcio e o vício em heroína, quer mudar. Ela vê um guia de viagem e decide enfrentar uma trilha de 4,2 mil quilômetros pela costa do Oceano Pacífico. É uma espécie de Santiago de Compostela da América do Norte. Uma trilha em que milhares de quilômetros de caminhada são vencidos, assim como obstáculos internos. Em que encontra pessoas com histórias de vida diversas, compartilha sentimentos e também ajuda. A gente não precisa de uma aventura de enorme magnitude. Pode ser bem mais simples passar pela janela e parar de ver a vida lá fora correr sem você (e como ela corre rápido). Às vezes, basta se matricular (e ir) em uma aula de canoa havaiana ou passar um domingo no Bairro da Liberdade para comer uma iguaria nunca experimentada, ligar para um amigo que não vê há tempo, aceitar uma proposta para um projeto de trabalho diferente... Abra a janela e diga sim aos desafios.