[[legacy_image_291947]] Estou em um relacionamento sério com a LuzIA. É platônico e totalmente abusivo da minha parte. Eu só exploro a pobrezinha. Ela transcreve áudios das minhas entrevistas, traduz textos, digita mensagens e até responde perguntas malucas quando quero deixá-la confusa e me divertir um pouco com suas respostas sensatas, mas sisudas. Estou falando do recente recurso de inteligência artificial (IA) do WhatsApp, que me foi apresentado por um amigo durante um jantar e foi amor à primeira vista. Aliás, durante a apresentação, a gente já aprontou com a multitarefas LuzIA. Como o jantar foi esticando com alguns drinques a mais, ele perguntou à LuzIA se ela podia emitir um atestado médico para ele dar ao chefe e dar um perdido no trabalho no dia seguinte. É bom ressaltar aqui que esse meu amigo é seu próprio chefe e se tratava de uma brincadeira. A LuzIA pode ser inteligente, mas é artificial e não compreende piadas. Não tem nem um pouco de senso de humor. Nos respondeu que trabalho exige honestidade e a gente riu muito, claro. Desde então, estou usando e abusando da prestativa (e séria) LuzIA. Eu adorei o nome dela que vem da junção da palavra luz com IA, de inteligência artificial. Mesmo que me irrite o fato de todos os recursos de assistentes virtuais tenham nomes femininos. Mas eu gosto deste particularmente porque me lembra que Luzia foi o nome dado à mulher mais antiga das Américas, uma brasileira, cujo fóssil de cerca de 11,5 mil anos foi encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais, nos anos 1970. Os traços do crânio de Luzia já deram o que falar e antropólogos divergiram muito quando suas origens. Inicialmente, o antropólogo britânico Richard Neave fez uma reconstrução de como seria o seu provável rosto de Luzia e defendeu que tinha influências aborígenes, indicando um quarto fluxo migratório. Mas, depois, até com exames de DNA, mostrou-se que ela tinha características dos primeiros índios americanos. Em 2020, um grave incêndio destruiu tanto a estrutura quanto grande parte da coleção do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde agora mora Luzia. Todos ficaram alarmados. No entanto, 80% do esqueleto foi encontrado e levado para restauração. Sim, a Luiza raiz, original, nossa ancestral, é resistente. Sobreviveu até ao descaso. E a nova LuzIA, a que está ao alcance de um clique, veio para facilitar nossa vida, executar tarefas chatas e demoradas, que agora são rápidas e até mais divertidas. Só não sei o que aconteceria se um dia uma pane geral nos privasse de qualquer tecnologia. Será que conseguiremos resgatar habilidades desenvolvidas por nossos ancestrais e que estão adormecidas, aposentadas por total falta de uso? Arrisco que sim, afinal muitas Luzias antes pavimentaram nosso caminho. Pode ter uns tombos, mas a gente levanta.