O telefone toca e do outro lado uma voz pergunta como foi o dia, se está tudo bem e se a pessoa precisa de alguma ajuda. Poderia ser um filho, uma amiga ou alguém que cuida de forma recorrente da sua saúde. Mas, dessa vez, quem puxou a conversa foi uma inteligência artificial. Pode parecer estranho, mas a proposta já existe. Uma plataforma portuguesa premiada usa chamadas telefônicas para acompanhar pessoas idosas. Um dos seus maiores atrativos é justamente não exigir que elas aprendam a usar uma tecnologia nova, basta atender ao telefone e conversar, sem precisar baixar um aplicativo, manusear o smartphone ou usar a internet. Enquanto tanta novidade hoje em dia começa com “crie uma conta” e termina com “esqueci minha senha”, essa plataforma aposta em um hábito conhecido há décadas por nós: a ligação telefônica. Para entendermos o modelo de negócio, a plataforma que faz a chamada, durante a conversa, pergunta sobre o bem-estar e situações da rotina, gera registros e pode sinalizar aos profissionais que alguém precisa de atenção. Se a pessoa não atende depois de várias tentativas, essa ausência também pode gerar um alerta. O modelo de negócio premiado nos convida a olhar para uma questão que nem sempre recebe a atenção necessária: a solidão é assunto de saúde. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vivencia solidão. O relatório ainda apontou que o isolamento social pode atingir até um em cada três idosos. Os termos parecem iguais, mas descrevem situações diferentes porque o isolamento social é ter poucos contatos e vínculos, já a solidão é sentir falta da conexão que se gostaria de ter. Por isso, alguém pode morar sozinho e se sentir bem, enquanto outra pessoa pode estar cercada de gente e, mesmo assim, se sentir profundamente só. Não basta contar quantas pessoas estão por perto, é preciso perceber se há espaço para conversar, ser ouvido e sentir que se faz parte da vida de alguém. A OMS associa a falta de conexão social a maiores riscos de doenças cardiovasculares, depressão, declínio cognitivo e morte precoce. Viver mais e melhor é uma conquista, só que os vínculos também precisam de cuidado ao longo desse caminho. A perda do companheiro, de amigos e familiares pode diminuir a rede de apoio. Já a aposentadoria, por exemplo, pode interromper encontros que faziam parte do cotidiano. Filhos distantes, dificuldades para sair de casa e edifícios com poucas oportunidades de convivência podem tornar o contato mais difícil. É compreensível que a possibilidade de conversar com uma IA provoque estranhamento, mas também vale pensar no que esse contato pode oferecer a quem passa boa parte do dia sem ter com quem falar. A tecnologia vem tomando o espaço que deveria ser humano, seja em algumas tarefas, seja nesse exemplo de diálogo via telefone. Cabe a nós, agora, encontrar tempo para escutar quem está do outro lado. Se uma inteligência artificial já consegue telefonar para perguntar se alguém está bem, o que está faltando para nós fazermos essa ligação também? *Professora e Especialista em IA e Tecnologia gabriela@wmorais.com.br